// #danaaaaaaado

as-manchetes-de-hoje1Daí que chega aquele momento em que a propaganda é realmente a alma do negócio: até do jornalístico – ou do jornaleiro, nesse caso específico. Na faculdade onde eu estudei, aquelas piadinhas que incentivavam a rivalidade entre jornalistas e publicitários corria solta! E olha que tínhamos, em algumas disciplinas, os mesmos professores – afinal de contas, são dois cursos de comunicação social.

Mas uma das máximas que eu mais ouvia, principalmente naquela fase de amor roxo dos primeiros semestres – e dava boas risadas -, essa eu lembrei hoje de manhã no buzu. E olhe que ela nunca pareceu tão apropriada para uma ocasião: “O jornalista relata os fatos, o publicitário relata o que quer…”.

A outra versão parecida, talvez menos, talvez mais preconceituosa com os colegas, mas desta vez bem famosa, é do George Orwell: “Jornalismo é publicar tudo aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade”.

Verdade ou mentira – com o perdão do trocadilho infame aos colegas e amigos publicitários -, contava um cobrador que entrou no buzu antes das 7h que um jornaleiro safado passou a perna em metade dos passageiros do ônibus que ele estava.

– Jornaleiro mais cínico, rapaz! – dizia ele com um exemplar do Jornal Massa dobrado nas mãos. E continuou:

– O cara entrou no buzu gritando: “GENTE, OLHA, O PADRINHO DO MENINO DE ITAPUÃ FOI SOLTO E JÁ FOI FUZILADO!!

Como notícia ruim vende mais do que água no deserto – e isso a gente aprendeu na faculdade, nos primeiros semestres, na mesma época da piada com os publicitários – o esperto saiu com os bolsos cheios.

Contava o cobrador, indignado, diga-se de passagem, que ele e mais dez passageiros do coletivo, no mínimo, tinham coçado os bolsos e comprado o jornal só para ver a notícia do fuzilamento. Quando levantaram a cabeça, o jornaleiro já tava espalhando a mentira em outra freguesia.

– Amanhã aquele mentiroso vai entrar no buzu de novo, ele vai ver. Você é cínico que só a desgraça, viu, véi?! Vou dizer bem assim pra ele! Até hoje eu procuro a notícia do fuzilamento e o cabra tá lá, vivinho da silva. Mas rapaaaaz….

Não queria causar discórdia ainda maior, amigo cobra, mas temo ter que lhe dizer que, além da mentira, o safado ainda lhe vendeu jornal passado. A notícia de que o padrinho do menino foi solto – mas não fuzilado – foi há dois dias, é notícia velha, jornal de ontem. Tivesse comprado o jornal de hoje, teria lido que o rapaz tomou foi um “chá de sumiço”, que Joelma foi na delegacia denunciar Chimbinha por difamação e que Compadre Washington tá lá, na capa, bem bonito, sem bigode! #Danaaaaaado

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// dinheiro, moeda, cheque, chave do apartamento…

moedasOtária chegou no ponto 9h15 e pegou o buzu às 9h20. Um verdadeiro milagre (!) numa manhã nublada de quarta-feira no Reino do Dendê. Plugou o fone de ouvido, escolheu a música Igual-Desigual (poema musicado de Carlos Drummond de Andrade na voz de Fernamda Ca), procurou um assento e achou: a janela da última poltrona do Rio das Pedras-Campo Grande R1.

A viagem seguia mais ou menos tranquila, mas algo dizia que aquela última poltrona, no fundo do buzu, não era lugar pra Otária andar. Ou melhor, ela lugar de otário andar, mesmo… Lá pelo ponto do Campo Santo, último antes que Otária descesse para ir trabalhar, uma voz ao fundo:

– Dinheiro, moeda…

O coração de Otária deu aquele solavanco e um cara entrou na parte de trás do buzu com a mão cheia de cédulas de R$ 2. O primeiro pensamento de Otária foi o celular, impossível de esconder, já que o fone estava à vista. O segundo, abrir a bolsa e pegar o dinheiro da carteira para dar ao “dono” que tava lá na frente gritando:

– Dinheiro, moeda, cheque, chave do apartamento…

O terceiro pensamento: tirar o fone na esperança que o cara não visse o celular. E aí Otária ouve o moço falando:

– Cinco paçoquita é R$ 1, batatinha é R$ 1, dinheiro, moeda, cheque, chave do apartamento, tudo paga!

Otária puxou a cordinha do ônibus e desceu logo, antes que o “dono” de verdade chegasse. Constrangimento total, mas lindo ia ser se Otária despachasse todo o rico dinheiro de final de mês na mão do vendedor de paçoquita às 9h40 de uma quarta-feira…

// os 10 mandamentos do Rei do Buzu

Montagem sobre foto d'O Globo

Agregando valor a este blog.

1. Guarda-roupa
Quem anda de buzu não devia se dar ao luxo de usar branco. Suja muito e você ainda corre o risco de chegar com cara de que pegou a roupa no balde de roupa suja e saiu de casa sem nem se olhar no espelho. Mas já que não tem jeito, melhor não gastar aquela calça branca que você comprou com o maior sacrifício. As da Riachuelo ou da Barroquinha estão de bom tamanho. Rei do Buzu que se preza seleciona a cadeira que vai sentar, de preferência as que não perderam o assento e ficaram com aqueles parafusos enferrujados. Ficar em pé é mais seguro nesses casos, mas ir sentado é status (statis?).

2. Mercedes-Benz
BTU e Central são mito, né? Em que outro buzu você tem a chance de ir sentado assistindo TV ou poder saber, num painel, qual é o próximo ponto? Mas é privilégio para poucos, porque nem todas as linhas são servidas. Outra coisa que agrega valor é o Beiru-T.Neves/Barra, que tem Wifi. A vantagem é que o valor é o mesmo. Não tem aquela coisa de variar de R$ 2,80 até o infinito (ainda…).

3. Serviço Exclusivo
O Rei do Buzu não compra qualquer bugiganga na mão dos vendedores ambulantes. Um bom frequentador já conhece os caras que inventam a mesma história todo santo dia, da filha que está internada no HGE até a guia que foi roubada. Comprar caneta para ajudar crianças carentes agrega valor à atitude.

4. Segurança
Segurança é uma coisa que não existe em lugar nenhum, mas o Rei do Buzu de verdade – não os outros, os invejosos – sabe com quem se relacionar. Num fim de linha de não-sei-de-onde, por exemplo, puxa papo com o motorista, com o cobrador. Segurança mesmo é sentar mais na frente, porque em qualquer emergência, dá para descer rapidamente. Tem que cuidar da integridade física da vida e dos bens.

5. Guaramix
Eu vou ser sincera com a questão do Guaramix. Eu prefiro a água, mas o Guaramix é status, entendeu? Até porque existe toda uma preparação, porque quando você pede o Guaramix, elas te olham como se você fosse meio atleta, e isso chama a atenção no buzu. Sem contar que é mais caro…

6. Famosos
Conhecer o motorista e o cobrador é fundamental. No final do dia, o Rei do Buzu sempre senta de camarote na primeira cadeira do buzu é fica de papo com o motorista – só quando o sinal está fechado, para não atrabalhar (aonde…). Conhecer os artistas de buzu também é fundamental. Pareta, Arthur, Onofre, o argentino do arrocha… Agrega valor a tudo: à sua linha, à sua cadeira, aos seus R$ 2,80.

7. Mulheres
Buzu tem que ter mulheres, mulheres bonitas. Porque não faz sentido você ter tudo aquilo ali e não ter as mulheres. É como você comprar um iPhone e não ter crédito. Sabe uma coisa? Mas aí eu acho que pode dar cana… Eu já transei no buzu… Lá no fundão, no pernoitão, Barra 1-Estação Mussurunga… pena que o buzu não tem banheiro…

8. Música
O Rei do Buzu que não tem uma caixinha de som com entrada USB não é um Rei do Buzu. Tem que ter Psirico, Black Style, Robysão, A Bronkka… No frescão rola uma MPB, também. Sempre rola um DJ de Buzu, e tem uns profissionais.

9. Instagram
Se não tiver Instagram, não é legal. Mas aí é aquela coisa. Se tiver o iPhone ou o Android e não tiver crédito, é como não ter, porque você não tem como postar, como divulgar suas fotos, seus vídeos dos acidentes, das manifestações, dos engarrafamentos, das brigas, dos famosos (seus amigos), da cidade alagada…

10. Invejosas
Quem não queria andar andar num buzu vazio, vendo TV, ouvindo música, usando wifi, conversando com os artistas, rodeada de gente bonita? Eu sei que muitos vão me criticar, mas, enfim, eu vejo isso como uma inveja.

// amor de buzu é assim

eu_amo_o_amor_do_onibus_i_o_onibus_do_onibus_cartao_postal-p239558392635812827envli_400Marcamos pontualmente às 8h15 na Graça. No começo, era aquela ansiedade, sem saber se ele vinha, se não vinha, se ia dar certo ou não. Será que ia me dar um bolo? Será que ia me tratar como uma qualquer e me deixar em pé, na fila, esperando um lugar vago? Não. No começo, não foi assim. Foi lindo!

Aquilo da primeira vez virou rotina. Nos encontrávamos todos os dias às
8h15 e dávamos um passeio matinal, até agradável. A gente se divertia! Música no volume máximo, um livro de vez em quando… A habilidade dele em correr pelas ruas; a minha, de me segurar nele para não cair. Até rolavam uns amassos nas curvas da vida. Eram as mil maravilhas.

Mas… homens! Com o tempo, relaxou. Começou a deixar a pontualidade de lado e, confesso, com o meu orgulho no chão, que eu continuava esperando. Todos os dias, as 8h15, eu estava lá, no mesmo local. Passados 20 ou 30 minutos, tinha que me contentar com o irmão gêmeo, o que se sempre quebrava meu galho.

Seis meses de relacionamento e nosso amor já havia esfriado. Ele não comparecia mais como no início, às vezes virava para o lado e dormia, ou então ia muito devagar, só para me contrariar. Me indignei. Era muita falta de respeito, então comecei a passar a perna nele. Não chegava na hora? Eu pegava outro… e outro… e outro… até chegar onde eu desejava.

Oito meses de namoro e nossa relação estava insustentável. No início do mês, ele até se esforçava – eu acho – para ser como no começo. Pontual e atencioso, divertido. Mas não durava. A sensação que eu tia era que ele andava me trocando por outra, ou que já tinha cansado mesmo.

Um ano e um mês. Cheguei à triste conclusão de que a nossa relação só dura por conta dos outros, a quem recorro eventualmente. Prefiro não saber das traições dele: o que os olhos não vêm, o coração não sente, é o que dizem…

Mas sabem como é essa relação de dependência, né? A gente cansa, chora, briga, se desgasta. Os amigos dizem que está na hora de acabar, de trocar o óleo. Mas como pôr fim a uma relação de tanto tempo, tantas alegrias, por conta de uns pequenos atrasos? (Tá, grandes atrasos!!).

Mudei de ponto, mudei de preço, mudei de estratégia, mudei de horário. Tudo mudou na nossa relação, mas uma única coisa permanece neste um ano e um mês: a minha necessidade crônica, a minha dependência como o ar que eu respiro, do miserável do 1137, Pernambués-Barra, de segunda a sexta, às 8h15.

Ass,

Otária da Silva Sauro

// a minha alma tá presa no buzu

Tô eu – Otária da Silva Sauro – no buzu (como sempre) esperando chegar o maxi-ponto de Pernambués pra poder descer, né? Aquele amontoado de gente na fila pra descida quando, de repente, o motorista arrasta o buzu, sem piedade. O povo, claro, começou:

– Ôôôôô, motô, peraí!

Ele não parou de novo, claro, porque tava no cruzamento. Começam os xingamentos a quem não vai descer no ponto e fica atravancando o meio de campo. A culpa é do motorista, que não parou de novo? Claro que não. A culpa é de uma senhora que PREGAVA, insistentemente, às 9h, dentro do buzu. Agarrada no cano, a miserável não se deixava interromper por PN, e continuava:

– A SUA ALMA ESTÁ PREEEEEESA NO ÁLCOOL?

E o povo querendo responder, né? Um desgraçado até fazia coro pra criatura lá do fundo, enquanto outro reclamava, em italiano, SAMBANDO na cara da mulher, que continuava:

– A SUA ALMA ESTÁ PRESA NAS DROOOOOOGAS? A SUA ALMA ESTÁ PRESA NAS COISAS MUNDAAAAANAS? A SUA ALMA ESTÁ PREPARADA PARA O PARAÍSO????

Inabalábel. Acho que se o buzu virasse ali, ela não via e nem parava. Meu coleguinha, divinamente, respondeu:

– A minha alma tá pronta pra trabalhar, minha senhora, dá licença?

A filha de Jeová não se mexia do lugar por nada no mundo. Enquanto isso, a nossa alma seguia presa no buzu até o próximo ponto. Quer dizer… PQP!

// fui exercer a minha cidadania

Fui lá exercer a minha cidadania, como dizem por aí, né? E como outros dizem também, fui exercer o meu direito que, na verdade, é uma obrigação, um dever. Um negócio que me rende uma multa, ou impossibilidade de fazer um monte de coisas, caso eu não o exerça. Meio contraditório, até, digamos assim. Mas fui mesmo assim: melhor acreditar que venha algo de bom, do que achar que vai continuar sem funcionar.

Pois bem. O corredor da Vitória parece a 25 de março em véspera de dia das mães (com exagero e tudo, claro). O engarrafamento começa – a partir de onde eu consegui ver – da orla da Barra, e vai, pelo menos, até o Campo Grande.

Tem criança em carrinho, menino dando dedada na urna acompanhado dos pais, criança em carrinho de bebê, com óculos piscante do Homem Aranha e até capa do Batman – ou de Joaquim Barbosa, quem sabe! Ou seja, estamos cheios de futuros super-heróis começando a se divertir no dia de “exercer a tal da cidadania”. O clima é de almoço em família logo em seguida, esperança, coisa de dia feliz, cidade movimentada.

Mas os pequenos, na verdade, mal sabem o significado de exercer a tal da cidadania. Nunca vi o Corredor da Vitória tão colorido. É bandeira de candidato, cavalete, santinhos distribuídos a torto e a direito. A cidade suja e uma sensação de que, na verdade, estamos decidindo ali, na hora, a caminho da urna, quem vamos escolher para nos representar pelos próximos quatro anos – tempo pra cacete, inclusive!

Se fosse o contrário, os santinhos vinham mais ou menos assim:

Mas não, vêm com o número do candidato bem grande, para você não errar na hora de votar. Um moço fazendo boca de urna de um candidato, me oferece, educado:

– Já tem vereador, moça?

– Peguei o santinho e guardei no bolso, pra ver com quantos chegava até o meu destino, o Colégio Estadual odorico Tavares, na Vitória.

Mais lá na frente, outro oferece outro santinho pra duas moças na minha frente, devidamente acompanhadas de umas crianças de cinco ou seis anos, no máximo. Uma delas recusa a oferta e dispara:

– Toda eleição é a mesma coisa, já tô até vacinada. É prefeito prometendo, vereador prometendo. Daqui a quatro anos, nunca vi nem a cara de quem eu votei. Falta de vergonha na cara tem até nome!

Segui o meu caminho e recebi o meu segundo santinho de um grupo de umas 10 meninas, fazendo ali o serviço da boca de urna só pra garantir o trocado do domingo, né?

– Vote Fulaninho, pelo menos com esse você não tem problema com a saúde, morre logo!

De uma sinceridade sem tamanho, mas arrancando risadas e distribuindo o estoque inteiro. Cada um na sua, né?

Agora, me pergunto: com tanto papel no chão, cartazes colados na cidade toda e adesivos no peito, como se mede a popularidade do candidato? Pela quantidade de santinhos distribuídos ou pelo número exagerado deles jogos no chão, pisoteados por quem, na maioria das vezes, nunca nem ouviu falar do tal do candidato?

Cidadania devidamente exercida, praticamente sem filas, volto para casa. Agora, é hora de dar plantão até sabermos, ainda hoje, quem são os 43 eleitos para tomar conta do plenário da Casa por mais quatro anos. Apertem os cintos, meu povo!

//expresso salvador-serrolândia: via mairi beach

Eu, Otária da Silva Sauro, em pessoa, carne, osso e couro, me abstenho de tecer comentários mais detalhados sobre a viagem de seis horas no Expresso Salvador-Serrolândia.

Basta dizer que eu estava dentro do buzu para saber que a coisa não andou exatamente como deveria. Mas, para não perder a viagem, eis as mais pedidas do trajeto via Mairi Beach (por ordem de incidência, tom de voz e nível de grito das criancinhas e passageiros impacientes):

“ÔÔÔÔ, TIIAAA LUUUUUUU! TIA LUUUUU, TIA LUUUUUUUUUÚÚÚÚÚ!!!”

“Meu nariz tá escorrendo, meu olho tá lacrimejando, to com vontade de vomitar”

“ÔÔÔÔÔ, MOTÔ, NIRGRAAAAÇAAA!!”

“ANDA, MOTORISTA, ANDA!”

“Ô, motô, tira o pé do bolso, meu filho!”

“ÔÔÔÔÔ, TIIAAAA LUUUUU, MEU TODDYNHO!! TIAAA LUUU, TIA LUUUUU, TIIA LUUUUUUUÚÚÚÚÚÚ”

“Afff, cala a boca, pelamordedeus…”

“TANGERINA, AMENDOINS COZIDO, CERVEJA, REFRIGERANTE, ÁGUA MINERAL, QUEM VAI??” (3X)

“VIROU FEIRA, FOI??”

“ARRASTA ESSA PORRA, MOTÔ!!”

“MÃE, MÃEE, MÃÃÃÃEEEEEE!!”

“Pai, o motorista é um relógio” (em looping)

“TIIIAAA LUUUU, EU TENHO MEDO DE AVIÃO”

“ÓÓÓÓÓÓ A PAMOOOONHAAAAA”

 

Legenda:

– EM CAIXA ALTA: AOS GRITOS!!!

– Em caixa baixa: tom voz voz relativamente normal