Entrevistas

Aqui, conversas com gente especial, daquelas pessoas que sempre deixam alguma coisa marcada em algum momento da vida da gente…

// Negra Jhô
Em 1º de novembro de 2010

O nome dela é Valdemira Telma de Jesus. A Negra Jhô, natural de Madre de Deus, é hoje uma verdadeira sumidade quando o assunto é estética afro. Cabeleireira, figurinista e defensora ferrenha da cultura negra, Jhô não abre mão de valorizar as raízes e garante: “O que segura a Bahia, hoje, ainda é o negro”.

Há quanto tempo você trabalha com estética afro?
Olha, eu trabalho com essa estética afro desde adolescente, tem um tempinho já. Mas eu nunca tomei curso e aqui no Pelourinho, aqui neste espaço, eu to desde 1997.

E qual a maioria do público? Homens, mulheres?
Eu sempre tive vontade de trabalhar só com a estética negra. Só com pessoa negra, para valorizar, pra dar força, pra pessoa ter valor, se achar bonita pela pele, pelo cabelo étnico. Mas é de uma maneira que eu não pude escolher o público. São pessoas. E hoje, a gente tão tem homens, como mulheres, como crianças. Não posso dizer que é mais homem ou mais mulher. Tá igual, homem mulher, todo mundo agora tá se arrumando, trançando os cabelos. Antigamente eram mais mulheres. Mas tem dia que aqui é só homem, é uma maravilha! [risos]

[risos] Quais são os tipos de penteados mais comuns?
A gente não trabalha com química nenhuma, a gente não alisa… Trabalha mesmo só com o natural, só com o penteado: é o cocó, é a trança-raiz, é o entrelace. É de uma maneira que a gente comenta aqui que é uma oficina de cabelos: a pessoa chega com o cabelo estragado e a gente coloca o cabelo arrumadinho, né?

Você fala de trabalhar com o penteado negro como valorização. Mas tem também um significado cultural e político, né?
É, tem muitos penteados que dizem que é de menina-moça, para mulheres solteiras, mulheres casadas. Quando eu faço aqui, eu não procuro saber nem se é virgem ou não! [risos] Eu sempre vou de acordo com o rosto, com o que vai acontecer. E a gente vai criando, a gente nunca repete o penteado.

O que você conhece sobre a tradição dos cabelos trançados?
A trança e os turbantes vieram de ancestrais nossos, do tempo dos africanos, do tempo da escravidão. E nisso, nós, mulheres, negras, homens, aderimos a esse penteado como uma maneira de fortalecimento. Uma maneira de dizer: “Eu estou aqui, minha bandeira está aqui!”. Uma bandeira de grandeza. Uma bandeira de agradecer aos nossos ancestrais pela beleza que nós temos. Uma beleza grande que a gente tem mais é que multiplicar. E eu também não consigo me ver de cabelo alisado. É uma beleza que não me vende pra ficar legal. Se eu tenho o meu cabelo étnico, por que não valorizar o que eu tenho? Não amar como eu sou? Por que eu vou alisar? Não vai combinar comigo. Quando eu era menor, minha madrasta fazia aquele cabelo que espichava, ficava fedendo, horrível. Eu me olhava no espelho e não me via. Aquela coisinha arrumadinha ali não é um padrão meu. Eu nunca gostei de espichar cabelo, cachear cabelo. Também, já nem tinha [risos]. E o pouquinho que tinha ainda queriam me passar um ferro? Não me sentia bem. Eu sempre gostei de trançar meu cabelo, de deixar curtinho. Sempre gostei de amarrar tecidos na minha cabeça. E eu fiz a minha marca em cima disso aí, da minha história. E aqui eu não aliso. Eu não aliso, eu não gosto. Eu tenho que conservar o que eu tenho de bom. É a nossa estética afro.

Um amigo me disse que vivia tímido, escondendo o cabelo, mas no dia que fez o Black, se sentiu outra pessoa…
Outra pessoa. Isso aí também já vem de criança, de dentro de casa, quando você elogia uma pessoa sua. “Ah, você é uma negra bonita, seu cabelo é massa!”. Antigamente, o povo dizia assim: “Ave Maria, que cabelo de arame, cabelo feio, Bom-Bril. Menina feia do olhão”. Quer dizer, tudo isso a gente guarda. Mas eu, tudo isso que era negativo, eu pegava pra mim como positivo: o cabelo Black é bonito sim, o cabelo étnico, o cabelo trançado, o cabelo dread. “Ah, você lava?”. Se não lavar, fica mal-cheiroso como qualquer outro tipo de cabelo.

Você começou a construir sua carreira a partir de 1997 ou começou antes?
É antes de 97. Aqui no Pelourinho, quando eu abri esse espaço, mas eu sempre me localizei como Negra Jhô, é uma história, é uma coisa que eu sempre gostei de ser negra, eu sempre gostei do meu cabelo. Hoje, quando eu vejo Ti Ti Ti (a novela), que eu vejo aquela senhora fazendo as roupas e reproduzindo em roupas de adulto, eu me lembro que pequena eu já fazia esse tipo de roupa nas minhas bonecas. Agora, eu nunca tive o dom de ser uma estilista, uma costureira, mas nunca é tarde pra nada. Mas eu nunca gostei de vestir como você está, de jeans e camisetinha. Eu nunca gostei. Desde pequena. Lá em casa, todo mundo vestia igual, era horrível, aquele horror de criança tudo feinha, tudo igual. Gente, você não sabia quem era quem. Na hora de chamar, podia chamar qualquer um que era tudo igual. Os penteados todos iguais, a roupinha toda igual. E eu não me sentia legal no grupo dos meus irmãos. Aí meu pai ia com a gente comprar aquele sapato. Se fosse nesse padrão do seu sapato, todo mundo tinha que ser desse, de outras cores. Aí num Natal, ele tava já pra me sentar a mão, aí ele falou assim: “Eu não vou comprar sua roupa nem seu sapato esse ano”. Por mim… Não me importei, mas eu pensei que ele não ia me dar a roupa. Ele me deu o dinheiro e disse: “Vá comprar pra ver o que é que você quer”. Você acredita nisso? Eu fui num mercadinho, como é a Feira de São Joaquim aqui, eu morava em feira, aí cheguei lá e comprei vários sacos de açúcar, tudo assim aberto, bonito. Fui, desfiei, fiz uma parte de cima com uns búzios da costa, embaixo uma saia toda desfiada com búzio da costa. Quando todo mundo chegou na noite de Natal, todo mundo se reuniu, todo mundo tem que se reunir pra jantar. Brigava o ano todo, quando era Natal, tava todo mundo sentadinho junto, comendo. Aí todo mundo chegou, né? Um sapatinho assim, umas pulseirinhas, tudo igual, só mudava a bolinha, a cor [risos]. Ah, minha filha, entrou a Negra Jhô, com esse vestido escândalo, um turbante na cabeça, umas pulseiras de búzio de cordão [risos]. Todo mundo abriu a boca. E eu: “Que é, o que foi?”. “Nada não, tá bonitinho”. “Bonitinho nada, tá lindo!”. Quer dizer, eles estavam no ritmo deles, eu cheguei no meu. Aí meu pai disse: “Ah, eu já sei o que ela quer, não tem mais jeito não”. Desde pequena ele sabia que não tinha jeito, porque eu tinha o meu valor. Eu sempre gostei. Minha farda da escola era diferente, eu ia pra escola fechando! Eu não tinha cabelo, mas cortava curtinho, ajeitava, me enfeitava. Aí o povo ficava: “Meu Deus, por que ela é assim? Sua filha vai ser hippie”. O povo falava pro meu pai que eu ia ser hippie. “Ô, por que a roupa dela é assim?”. Teve uma que me disse uma vez que eu era maluca. Quer dizer, se eu não tivesse a minha auto-estima, o meu valor, eu ia morrer, porque eu não sei se eu ia me vestir assim. Eu não sei, não me vejo vestida assim normal. Não quer para querer se mostrar, é o meu estilo. Isso aí não é coisa de agora, é desde pequena. A gente ganhava boneca, meu pai era bem empregado, trabalhava na Petrobras, e a gente ganhava aquelas bonecas Suzie, que hoje é caríssima. A gente ganhava as caixas em casa. Minhas irmãs faziam questão de mostrar aos vizinhos aquela boneca Suzie, com os cabelos caindo na cabeça. A minha ficava lá. Todo mundo ficava dizendo: “Essa menina sua é doente, essa menina tem problema”.

[risos]
Porque eu olhava pra Suzie: olha o nariz, olha o corpito. Eu dizia: “Meu Deus, eu não sou isso aí”. Aí um dia eu ganhei um boneco, tenho em casa até hoje. É assim, plástica, escurinha. Porque antigamente boneca preta não tinha. Ai, minha filha, eu pequei a boneca, comecei a furar a cabeça. E o povo dizia: “Aí, ó. Dá as coisas que ela gosta e ela faz isso, tá matando a boneca”. E eu na minha calada. Furei a cabeça, tudo certinho, peguei o sisal, desfiei todinho, penteei, ficou todo soltinho. Botei na boneca, trancei toda a cabeça da boneca, fui na praia… Porque lá em casa, todo dia de manhã, a gente era obrigado a ir pra praia de manhã, porque meu pai dizia que a gente tinha que limpar o corpo. Aí a gente tinha que ir pra praia, antes de ir pra escola, cedo!

É mesmo?
O quê? Meu pai? Pegava todo mundo, quando ele tava em casa, todo mundo, botava pra ir pra praia pra dar um mergulho, limpar o corpo. Aí voltava pra casa pra tomar banho pra ir pra escola? Era ruim de a gente ir pra escola de manhã sem tomar um banho de mar. E eu ia tomar banho, mas ficava catando os búzios na praia, louca! Catando, catando, e botava dentro da calçola, porque o biquíni era de pano! [risos] Aí botava, vinha com aquele negócio cheio. Aí chegava em casa, guardava e depois botava mais trança. Eu tinha, o que, na faixa de oito anos. Minha mãe morreu, eu tinha seis.

Já nasceu com isso.
Já nasci com isso. Você me viu comendo aqui onde? No prato de barro. Eu só como no prato de barro, se tivesse em casa tava comendo de mão. É o meu estilo. Eu ia fazer uma reforma aqui, ia pintar a parede bonitinha? Não, botei de barro. Se o povo entrar e não gostar, problema do povo. Eu tenho que gostar, tenho que me sentir bem. E eu tenho que reverenciar os meus que me deram, com muita luta. É como eu digo. Se negro se unisse, se respeitasse, se amasse, na Bahia não tinha quem desse na gente! E quando branco vem de lá dos Estados Unidos, da Europa, de onde quer que ele venha pro nosso carnaval, ele não vem ver Ivete, Claudinha, não. Você sabe disso? Eles ficam loucos pra ver Olodum, Filhos de Gandhy. Ilê Aiyê?Ave Maria, o povo só falta se lascar no chão pra ver. Eles vêm aqui pra ver a cultura afro, porque o que segura a Bahia, hoje, ainda é o negro.

// Carmem Oliveira
Em 8 de abril de 2009

Não apenas como prevenção de doenças como hipertensão, de cunho psicológico ou físico, a dança de salão é um tipo de válvula de escape para diversos grupos da terceira idade. Especialistas não negam os benefícios que a dança traz para esta turma e, inclusive, recomendam, desde que a atividade seja acompanhada. Há quem diga que os idosos dançam 365 dias por ano e adoram quando o ano é bissexto! Eles não podem mais perder tempo. E não querem! Dançam antes que a música acabe e aproveitam a oportunidade para lotar as salas de aula e os salões de dança. Nada mais impede essa garotada de viver!

Para falar de dança na terceira idade, ninguém melhor do que a professora que descobriu, em sua própria família, a eficácia da atividade como terapia intensiva para pessoas dessa faixa etária. Carmem Oliveira, carinhosamente conhecida como Mima, é bailarina formada pela Escola de Ballet do Teatro Castro Alves (Ebateca). É especialista em jazz, tango, ritmos latinos, caribenhos, forró e swing americano. Já ministrou aulas voluntariamente para cadeirantes e, hoje, mantém a escola de dança Jorge Chagas e Mima junto com seu esposo, o também professor Jorge Chagas, com núcleos em seis das mais tradicionais escolas de dança de Salvador. Mima dá aulas, também voluntariamente, para pacientes do Hospital Aristides Maltez uma vez por semana.

Aos 52 anos, a professora não para de inovar. A última novidade é um baile no Hotel da Bahia com o tema “Dança no País do Futebol”, no dia 24 de abril. “Por que não trazer a magia do futebol para o salão?”, questiona.

Quem é Carmem Oliveira?
Carmem Oliveira, na verdade, é Mima. É um apelido de herança, meu pai me deu e eu amo. Passa todo o carinho e a paciência que se precisa ter pra ser realizadora de sonhos. Carmem é um nome forte, de uma mulher forte, irmã de minha mãe com quem tinha uma afinidade espiritual grande. Achavam até que ela era minha mãe biológica.

Você se auto define uma realizadora de sonhos?
Sim. Uma mulher realizadora de sonhos, batalhadora, vitoriosa, agoniada por viver! Adoro dançar, faço exatamente o que gosto na vida, por isso sou realizada.

De onde surgiu esse interesse pela dança?
Dentre as coisas que pai e mãe nos possibilitam, eu devo isso aos meus, que me deram a oportunidade. Me apaixonei pela música e a dança vem daí. Veio a oportunidade de fazer balé clássico, depois jazz, uma coisa mais explosiva, mais a minha cara. Eu danço desde os seis anos de idade.

Qual a sua idade? Desculpa a pergunta.
52 e digo isso com o maior prazer.

Qual a importância de estar no palco, no salão, na sala de aula?
No palco é a realização de ver os alunos apresentando o material que a gente deu a eles. As pessoas cobram a minha participação e de Jorge. E sempre a gente faz algum trecho que é o momento em que o aluno gosta de ver o seu professor dançando, olhar e dizer, ‘aquele é nosso professor’. No palco é fantástico porque eu não vejo ninguém, as luzes vêm em cima de mim, é o momento em que incorpora a dançarina e a veia fica cheia de batimentos cardíacos pelo fluxo sanguíneo, vai lá pro coração e aí é só emoção.

Como surgiu a idéia de criar turmas para terceira idade?
Não só pra terceira idade. Eu percebo que quem não tem dinheiro é que mais precisa de uma atividade física. A gente trabalha com eles a prevenção e a qualidade de vida com objetivo da longevidade com saúde. A história foi essa. Meu pai foi atropelado por uma bicicleta e ficou cinco anos paralítico. Eu busquei de todas as formas nos espaços de fisioterapia, neurologia – ele teve um AVC – sem sucesso. E achei que a dança podia ajudar. Não só o idoso como prevenção, mas o cadeirante. Tive turmas com cadeirantes e o testemunho das mães deles – eu não cobrava, era um trabalho de doação – é que evoluíam muito mais do que em instituições específicas de reabilitação. Depois veio o Gama, também voluntário, com as mulheres mastectomizadas do Aristides Maltez. Confesso que quando me procuram, digo: ‘não, não tenho tempo’. Mas, quando você vai lá e olha a cara desse povo que precisa tanto desse tempo, abro uma lacuna uma vez na semana, por uma hora e meia. Mas, não deixo de fazer, me gratifica. Eles vivem muito mais. Tem a reabilitação do salão pra casos de AVC. O tango é recomendado para prevenção e tratamento do mal de Parkinson com resultados em grande escala. Isso tudo me desperta o prazer de trabalhar com esse pessoal, o resultado é eminente.

O que você percebe na relação da terceira idade com a dança de diferente dos jovens?
Eles não podem perder tempo. É assim: ‘dance antes que a música acabe!’. Não perdem nada, estão sempre prontos, nunca exaustos. Apesar de que o público jovem tem procurado o salão, com o objetivo de se preparar pra fazer sucesso, principalmente o homem. A diferença é esta. O mais velho não pode perder tempo. Assim que têm a oportunidade, correm pra escola e pros salões. E contratam os dançarinos, personal, o cavalheiro que a acompanha, caso ela não tenha. Nada mais impede essa turma. Nada!

Eles são maioria nas turmas?
Nos salões. Na turma, eles entram, aprendem e saem diplomados e vão pros salões, onde eles só querem alegria.

Quais são as vantagens da dança para a terceira idade?
Trabalha a hipertensão. Perde calorias, libera o hormônio da felicidade, diminui o risco de acidentes cerebrais. Fazendo uma pessoa feliz, você tira ela dos consultórios dos psicólogos. É acompanhamento às sessões do tratamento de depressões, síndrome do pânico. É a única atividade física que trabalha coordenação, equilíbrio, função motora. Trabalha a hiperatividade do ponto de vista patológico. Hoje, as pessoas que buscam a felicidade, que não querem perder tempo é que são hiperativas. E não é bem isso. Essa hiperatividade de estar nos salões, dançando, extravasando esse excesso de energia é benefício da dança. Eu passaria a noite inteira lhe convencendo de que o caminho é dançar.

Alguma história de um aluno da terceira idade te marcou?
Uma aluna marcou, a gente já fez um espetáculo e usou a história dela. O marido acamado com AVC, e ela precisava de uma válvula de escape, e foi a dança. Ela dizia que ia à feira e nesta uma hora fazia aula. Era a aluna mais assídua. E ela tinha que justificar a ausência em casa. Comprava umas frutinhas. Isso acontecia duas vezes na semana. Até hoje – o marido já se foi – participa de espetáculos, os filhos levam, apóiam, o que ela quiser eles possibilitam e acham que é o maior ponto de equilíbrio para a vida dela. Ele era um homem da antiga, machista e ‘Ave Maria’ que ele soubesse!

Você acha que os espaços de dança em Salvador são suficientes?
Não. São poucos, com salões pequenos. Tem público, mas jamais chegaremos ao Rio de Janeiro com a prática habitual de dança. Lá a gente sai de aula 23 horas e vai a uma gafieira ou um clube, com programação diária de baile. Aqui não. São poucos os lugares que têm e o público alvo não é salão. Estamos na iminência de perder mais um, o Espanhol, que abriu a oportunidade de deixar que o pessoal vá praticar. É por isso que nos preocupamos em duas vezes no ano fazermos bailes no Hotel da Bahia, que é um salão grande e recebe bem, digno do povo freqüentador dos grandes salões de dança de outrora. Eu tenho vontade de fazer um baile na Rua Chile, relembrando os grandes bailes. A Prefeitura precisa saber disso pra que a gente consiga levar novamente os freqüentadores de salões aos salões. Mas, a gente precisa ter eles! Cadê os salões?

Há perspectiva de criação de novos salões?
Acho que tem perspectiva de reviver os tempos. Há um projeto de revitalização da Rua Chile. Eu freqüentava o Palace Hotel, hoje fechado, e que era um marco, onde os grandes nomes, inclusive Getúlio Vargas se hospedou lá. Aqueles salões brilhavam! Ou, que se implante casas com noitadas de salão, pra que a gente possa freqüentar mais regularmente.

Qual é o custo para as pessoas que freqüentam bailes?
Normalmente os lugares que recebem o pessoal cobram apenas um couvert e o consumo individual. Queixam-se que o pessoal não consome. Mesmo assim o público é bacana. No Hotel da Bahia conseguimos receber por R$ 90 individual e casal de R$ 170, com uma noite glamourosa! Não se pode fazer isso toda hora, mas duas vezes no ano pode-se programar. É um baile consolidado, uma noite inesquecível, todo mundo ama, são bailes temáticos.

De onde surgiu a idéia do tema “Dança no País do Futebol”?
É a mente pensante, intuir o que a gente vai fazer de novo. Aí, pensei, olhando um jogo de futebol, que os jogadores são dançarinos! Os desenhos que fazem lá são nossos nos salões. E futebol é um dos maiores movimentos culturais do mundo. Tem horas que você acredita que tem a regência de um maestro. Veio a idéia de fazermos uma homenagem voltada pra o nosso futebol, Bahia e Vitória. Procuramos uma coreografia, uma música que tivesse a energia da torcida e achamos Futeboleiro, de Carlinhos Brown. Coreografamos Futeboleiro e procuramos parceria do futebol. Primeiro do Bahia, que nos recebeu, mas não deu a menor importância. Nem dizendo que estava construindo um troféu pra entregar a personalidades. Então visitei o Vitória, que me recebeu: ‘Professora, que grande idéia! Quero convidá-los a vir no campo, assistir um treino’. Fiquei sem palavras! O Bahia não soube dar o valor que a arte merece. Surgiu assim. Eu digo: ‘vista sua camisa e leve sua torcida!’. O pessoal entende de diversas formas. ‘A minha torcida é a minha turma?’. Sim. É o grupo de amigos com o objetivo de gerar o encontro, a socialização.

A primeira pessoa que eu falei sobre o tema perguntou se as pessoas iam dançar de chuteira…
Pois é! [risos] É uma sugestão que as pessoas estejam com as camisas dos seus times. Nossos estarão de tênis de dança, imitando as chuteiras. E o troféu é um sapato de dança com salto alto, com bilros que lembram a chuteira, com uma bola ao lado. Não precisa ser chuteira. O seu instrumento do chute a gol é o seu sapato de dança. O deles é que é a chuteira. Eles dançam lá no campo e a gente nos salões de dança!

// Lili Sanches
Em 4 de setembro de 2008

Argentina, 54 anos. 35 no Brasil e destes, 32 vividos na Bahia. O clima e a cultura a atraíram e desde então este é o lugar escolhido por Lili Sanches para inspirar a sua arte. Seu trabalho resulta do olhar artístico sobre a cultura popular baiana e sua influência sobre os diversos povos que freqüentam o estado. Por que será que o Brasil se mostra tão encantador para esta baiana de coração?

Você trabalha com xilogravuras. Há quanto tempo está no Pelourinho?
Desde 1993, há 15 anos.

Quando você veio para o Brasil?
Há 35 anos. Eu não vim direto para a Bahia. Morei três anos no Rio de Janeiro, me casei lá, tive um filho. Só depois que vim pra Bahia e estou aqui há 32 anos.

Você sempre trabalhou no Pelourinho?
Non, yo trabalhei também na Praça da Piedade. Mostrava o meu trabalho lá, mas depois vim pro Pelourinho porque a concentração maior de turistas e artistas era aqui.

O Pelourinho ainda é visto como uma área marginalizada. Você acha que por isso diminuiu o número de turistas por aqui?
Diminuíram os turistas por conta da queda do dólar. A segurança sempre teve. O Pelourinho já foi pior. O Pelourinho já foi muito pior.

Você está aqui no Brasil há muito tempo… Você mora sozinha aqui?
Si, moro sozinha.

E a família? Você não sente falta das pessoas que ficaram lá na Argentina?
Tenho um filho carioca. Mas ele mora na Argentina… (risos) Tem 29 anos. Ele é formado em Comunicação Social, é crítico musical. Eu gosto daqui, do clima daqui. Mas eu sempre vou pra lá. De dois em dois anos eu vou pra lá e fico dois ou três meses. Depois eu volto, venho trabalhar de novo [risos].

Eu já vim algumas vezes aqui, conheço o pessoal daqui do beco dos artistas, mas é a primeira vez que te vejo. Você vem todos os dias?
Não venho todos os dias, geralmente sábado e domingo. Esses dias eu sempre venho. É que o meu trabalho é todo feito com pincel, muito trabalhoso. Tem que fazer na oficina. Então eu passo a semana toda produzindo, né? Depois eu trago pra cá no final da semana.

As pessoas passam e te cumprimentam! Você é bastante conhecida por aqui! Seu trabalho já passou por exposições?
Si, si! Fiz exposição no Teatro 18, Aliança Francesa, Alambique, no MAM de Feira de Santana, no Centro Cultural Caetano Veloso, em Santo Amaro. Vários lugares! Ah, e tenho exposição permanente também no Solar Ferrão e na Galeria 13.

Você só pinta em camisas e bolsas?
Non, pinto em telas também, mas não vendo. É só para mim mesmo. Faço pesquisa em pintura com a Irmandade da Boa Morte, de Cachoeira, e do Carnaval. O meu trabalho é todo assim! Carnaval e Irmandade da Boa Morte. Trabalhei com xilogravura por muito tempo. É a minha paixão! Mas acabaram com as ferramentas no MAM e no CUCA de Feira de Santana…

O seu trabalho é mais consumido por estrangeiros ou brasileiros?
Geralmente estrangeiros, brasileiros, de qualquer lugar do mundo. É quem gosta de arte! Não tem nação, o meu trabalho! [risos]

// Raimunda Eleno e Elízia Gonçalves
Em 02 de junho de 2008

Frequentadoras do Clube da Maior Idade Renascer, Dona Raimunda Eleno e Dona Elízia Gonçalves mostram sua paixão pela dança de salão. Verdadeiramente, uma dupla de tirar o chapéu.

Qual o nome e a idade de vocês?
Dona Raimunda: Raimunda Eleno, 69 anos.
Dona Elízia: Elízia Gonçalves Prazeres, 81 anos.

As senhoras são aposentadas? Qual era a profissão antes da aposentadoria?
Dona Raimunda: Sou aposentada. Era professora de Educação Física.
Dona Elízia: Eu sou pensionista. Nunca trabalhei não, minha filha. Naquela época mulher não trabalhava não. Eu era dona de casa. Fazia prendas. Naquela época quem tinha emprego e era casada tinha que largar o emprego.

Há quanto tempo as senhoras frequentam o Clube da Maior Idade Renascer?
Dona Raimunda: Há uns dez ou 11 anos. Tem 11 anos que eu freqüento o Renascer. Quase desde o tempo que ele surgiu.
Dona Elízia: Ah, tem uns três anos por aí, né? Três a quatro anos. Eu faço parte de três grupos. Eu tenho que me virar nos 30, viu?! [risos]

Como surgiu o interesse pela dança? As senhoras sempre dançaram ou esse prazer pela dança é algo recente?
Dona Raimunda: Bem, eu sempre tive interesse pela dança, porque em Educação Física, a gente fazia ginástica rítmica. E jovem, eu dançava muito rock. Dançava mambo, salsa, rock. Escondido, mas dançava! [risos] Primeiro veio o mambo e o samba. Depois veio o rock. Quando eu casei, tive que largar tudo isso. Me aposentei, voltei a dançar dança de salão, voltei a fazer aquilo que eu sempre gostei. Entrei pro grupo Renascer e vim fazer dança de salão. Não faço só isso: faço teatro, faço ginástica cerebral. Porque sempre gostei! Faço ginástica aeróbica.
Dona Elízia: Ah, eram as colegas que faziam dança e me chamaram pra dançar também. Meu telefone, meu celular, minha televisão, minha dança. Faça tudo, mas não me tire nada disso! [risos]

As senhoras são casadas, têm filhos? Eles dançam também?
Dona Raimunda: Sou separada e tenho três filhos e uma neta. Não. Uma é professora de inglês, a outra trabalha na polícia federal e o rapaz é lutador de vale-tudo.
Dona Elízia: Não, eu sou viúva há 30 anos. Eu tive dois casais. Não, que nada! (risos) Minha filha caçula que me leva pras danças, ela é advogada. Me leva, me larga lá na porta do Espanhol e volta só no final. Ninguém gosta não, só eu. Também quando era jovem eu nunca tive chance. Meu marido não gostava de dança, meu pai, quando eu era criança nunca deixava eu dançar em lugar nenhum. Não sabia dançar, não sabia nada da vida!

Dona Raimunda, a pessoa que me falou de você, Dona Dulce, presidente do Clube Renascer, me disse que a senhora tinha uma história linda com a dança. Pode me contar essa história?
Dona Raimunda: Eu participo de tudo. Tudo quanto é negócio de dança eu tô. Eu danço tango, eu danço a gafieira, eu danço samba, eu danço bolero, eu danço o samba-rock, eu faço dança do ventre. Quer dizer, eu gosto da dança. É como eu disse, eu sempre quis fazer dança desde criança, mas naquele meu tempo era proibido. Quem fazia dança era o quê?… Entendeu? Quem fazia dança era… Não precisa dizer. Então eu dançava escondido. Agora que eu não posso dançar com as possibilidades que eu tinha quando era jovem, mas eu tô dançando agora. Não vai ser a mesma coisa que se eu tivesse com 20 anos, aí a coisa ia ser braba mesmo! [risos] Ela diz isso porque eu gosto muito de dançar, ela sabe. Eu sempre tenho um jeito de dança, de estar alegrando o povo aí, dançando. Quando ela diz que eu tenho uma história linda com a dança é porque eu fui proibida de dançar, e fui fazer agora o que não pude fazer quando era jovem. Mas eu adoro dançar! O povo me diz: “Não fique dançando muito assim que você pode morrer”. Morro dançando e morro feliz! [risos]

As senhoras já ganham várias medalhas pela dança. Sempre participaram de competições? Freqüentam muitos bailes? Conhecem o Baile Azul e Branco do Restaurante Lugar Comum?
Dona Raimunda: Ganhei agora o segundo lugar na gafieira, no Ballace, esse final de semana. Domingo, dia 25. Ganhei também o Oscar da Dança em 2007. Dancei o tango na Associação Atlética em 2005. Dancei também no Hotel da Bahia, foi em 2006, a gafieira. Dancei o zouk no Aeroclube para os ciganos que estavam lá tocando, que eram os amigos da gente. Dancei com esse professor que é meu afilhado, Abraão. Participei de competições só agora, que tirei o segundo lugar. O Oscar eu ganhei porque eu dancei o tango. Não, não freqüento os bailes, só aqui no Renascer e no Espaço Dez quando eles pedem pra dançar. Já dancei no Campo Grande. Eu não vou porque eu não tenho como voltar sozinha. E também eu não gosto de perder noite não. Nunca fui no Azul e Branco, não. Eu vou no Vermelho e Branco, que é daqui. E tem o bloco no carnaval daqui a Associação também, que eu já fui porta-bandeira duas vezes.
Dona Elízia: Não, não. Só apresentações mesmo, no Shopping Itaigara, no Shopping Lapa. Eu vou, eu vou. Vou pra todos os bailes, não perco um! Não quer saber nem do horário! E eu só gosto de sair no lixo! [risos] Entro de madrugada e só saio no lixo! Se for pra ficar até de manhã eu fico! [risos] Não chamo pra ir embora, não cochilo, nem nada! Ir pra festa cochilar? É ruim! Não é perder noite, é ganhar noite! [risos] Pois eu já fui nos dois: Azul e Branco e Vermelho e Branco.

Tem alguma coisa que as senhoras ainda gostariam de falar para as pessoas que não dançam por causa da idade?
Dona Raimunda: Ah, eu acho que isso é preconceito. Eu acho que todo mundo deve dançar, porque a dança faz bem à saúde, à alma. A dança faz a gente se sentir mais jovem! A melhor terapia que tem é a dança! Se eu pudesse voltar atrás eu dançaria mais! Quando eu to na dança eu esqueço tudo!
Dona Elízia: É a terapia, isso é uma bobagem! Todo mundo tem direito de dançar, tem direito de se divertir, com dor ou sem dor! Toma um remedinho e vai! [sic] A gente esquece da dor, esquece tudo.

// Roberto José de Souza
Em 1º de maio de 2008

Profissão: Cupido! O Professor Roberto, como é conhecido entre amigos, me recebeu em sua casa na quinta-feira, 1º de maio. Sua família assistia a um jogo entre dois times europeus, e enquanto isso ele se empolgava ao responder as minhas perguntas e mostrar seus troféus, seus vários recortes de jornais, além de álbuns de fotografias, todas do famoso “Baile Azul e Branco”, organizado por ele mesmo no Restaurante Lugar Comum há dez anos. Lá, também rendem noites de serestas todas as terças-feiras. Nosso bate-papo rendeu histórias do tempo do meu avô, além de relatos de superação e mesmo de paixão em favor da dança de salão.

Qual o seu nome completo e idade?
Roberto José de Souza, 65 anos.

O senhor é casado, tem filhos?
Sim, sou casado e tenho três filhos. Duas meninas e um menino.

Sua esposa e seus filhos também dançam?
Minha esposa nunca foi muito chegada a dança. Minha filha Roberta dança muito, já nasceu dançando! (risos). Já os outros dois também não gostam muito de dançar, não…

O senhor tem formação na área de dança?
Não. É uma forma de diversão, aprendi a dançar na rua, nos antigos Cabarés da Bahia: Monte Carlo, Sandoval, Dance.

O senhor sempre gostou de dançar, desde jovem, ou é algo recente? Como surgiu o interesse pela dança?
Muito, desde jovem! Minha profissão era de guia turístico. Na época da Guerra do Golfo Pérsico, eu reunia as pessoas para fazer turismo, e eu usava a dança para atrair as pessoas, para distraí-las naquela época e naquela situação. Eu era professor de inglês, e isso facilitava as coisas.

Por que seresta? É um baile voltado para a terceira idade ou há frequência constante de jovens também? É difícil organizar os bailes toda semana?
Pela preservação da música romântica. Além de atrair as pessoas, é também o tipo de música de que eu gosto. A maioria do público é da 3ª idade, e seresta é o tipo de música de que eles nós mais gostamos. Há um valor simbólico cobrado pela entrada, para pagar os músicos. Eu não faço por dinheiro, o dinheiro é conseqüência. Na verdade, eu sempre acabo gastando mais que lucrando, má só a satisfação de ver a casa ceia já vale por tudo!

Como é a frequência? Há casais que vão constantemente? A maioria vai acompanhada ou desacompanhada?
A maioria das pessoas que vão aos bailes é de freqüência constante. Eles vão sempre. O público é quase sempre o mesmo. As pessoas que vão lá dançam 365 dias por ano! E eles adoram quando o ano é bissexto! Porque eles têm um dia a mais para dançar! (risos) A maioria é de casais, mas vão desacompanhados também.

Há uma freqüência de casais que fazem aula de dança?
A maioria faz aulas de dança. Aulas particulares. Cada um tem seu estilo, sua característica própria. Mas com aulas ou não, as pessoas que vão lá sabem dançar mesmo!

Costumam haver festivais de dança, competições?
Não. Eu organizo eventos, não gosto de organizar competições, porque geram brigas. E lá é um ambiente muito familiar. Tem muitos médicos, engenheiros, advogados. tem algo “religioso” lá, como por exemplo, não é permitida a entrada de chinelos, ou de bermuda. As pessoas que freqüentam as serestas têm netos, bisnetos, são pessoas com uma história de vida bastante longa, e se respeitam muito. Não vale a pena correr o risco de gerar brigas.

Quem freqüenta mais? Homens ou mulheres?
O público maior é feminino, com certeza. Como tem muita mulher, às vezes elas juntam umas três ou quatro e pagam um professor de dança para acompanhá-las. Aí é espetáculo a noite inteira! [risos]

Já aconteceu alguma situação engraçada?
Não. Pelo próprio tipo de música, é uma coisa mais séria, nunca aconteceu nada de inusitado, não.

Para o senhor, a dança é uma forma de terapia?
Perfeitamente! Justamente a filosofia do baile é a terapia, é a socialização das pessoas. Todo ano, geralmente no final do ano, eu realizo o Baile Azul e Branco. É o carro-chefe do Lugar Comum. Por conta do Baile Azul e Branco, o restaurante é conhecido no mundo todo. Como eu sou guia turístico, sempre que venho com grupos estrangeiros, eu os levo lá e eles saem muito satisfeitos e felizes do lugar! E divulgam também! A força da terapia é bastante forte. Aconteceu uma situação impressionante uma vez. Certa noite uma senhora, de uns 80 anos, teve um acidente vascular cerebral (AVC) muito forte, no meio do salão. Foi grave de verdade. os médicos que a atenderam disseram que se ela não estivesse dançando no momento, provavelmente não teria sobrevivido. O próprio médico disse que foi tudo graças à dança, por causa da adrenalina que ela sentia na hora, a grande circulação sangüínea e a agitação no momento da dança salvaram a sua vida.

Há algum personagem? Alguém que esteja sempre presente, que todo mundo conheça?
Tem vários casais que são muito conhecidos pela elegância. Sr. Beleza é bem conhecido! As pessoas chegavam para ele e falavam: “E aí, beleza, Sr. Beleza?”. Tem uma senhora que vai sempre, não para dançar, mas para escutar a música, porque dá prazer a ela. Tem muitos casos.

Tem alguma coisa que o senhor gostaria de dizer para as pessoas que acham que não podem mais dançar por conta da idade?
É um erro muito grande, a dança é uma terapia muito intensa. Mas tem que gostar. Se não gostar, você vai um dia, só para ver como é, e não volta. Quem gosta de verdade dança todo dia, e adora o ano bissexto! [risos]

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