// chuva e mar (ou ‘o bom filho à casa torna)

chuva na praia @ Mosqueiro, PAS, BrasilLá estava eu, ansiosa, contando os minutos pra uma merecida folga de 13 dias – TREZE! E fazendo planos: ir na praia, montar um varal de fotos na minha varanda, começar a dieta, virar estudante de verdade (sim, voltei pra faculdade e agora estudo História \o/), voltar a escrever nesse blog, abandonado desde a minha depressão pós-Copa. O primeiro desses planos aí listados incluía ir na praia com a minha amiga, colega e quase gêmea Amanda Palma.

Era o primeiro problema… Fazia uns oito meses que a gente tentava ir na praia, mas nunca dava certo. Simplesmente porque em todas as ocasiões em que Amanda fazia parte dos planos de curtir o Porto da Barra, chovia. Daquelas chuvas torrenciais, de durar o dia inteiro, ou simplesmente uma chuvinha leve, mas chata, suficiente para acabar com os planos.

Na última terça-feira a gente acordou cedo. Eu cá, no Centro, e ela de lá, em Brotas, olhamos pro céu: até tinha nuvens, mas o sol estava lá, brilhando! Vamos para a praia! Vestimos o biquíni, calçamos uma havaiana e pegamos o short e a camiseta mais velhinhos da gaveta. Era só um banho de mar, oras…

Minha gêmea chegou na minha casa e o céu começou a mudar. (Ah, é só um nuvem., vai passar…) Insistimos, pegamos um buzu e, já no pé da Ladeira da Barra, a maldição caiu sobre o Pituba R1. Uma chuva daquelas torrenciais, das que não encorajam a criatura nem a sair de dentro do ônibus. Eram 9h e, em apenas duas horas, São Pedro furou nossa terça-feira de sol e mar, sombra e água fresca.

Fomos para o shopping, abrigo mais próximo… A sensação é que a gente tinha acabado de sair da guerra. Aquele shortinho e camiseta tirados do fundo da gaveta afastavam os vendedores, ninguém dava a mínima pra nossa tentativa desesperada de se livrar daquela havaiana molhada, jogando lama nas pernas. E o biquíni por baixo da roupa, naquela chuva? O jeito foi trocar de roupa, comprar uma sapatilha e curtir a manhã olhando vitrines… É, só olhando mesmo.

Foto: Clarissa Pacheco

Quarta-feira, Porto da Barra | Foto: Clarissa Pacheco

Como toda miséria parecia pouco, decidimos ir para casa – a praia já estava frustrada mesmo… A surpresa foi um sol brilhando no céu, cena que só durou o tempo suficiente para fazermos novos planos de ir à praia depois do almoço. O céu se carregou de nuvens cinzas, daquelas de anoitecer o dia no meio da tarde.

Senti que a maldição da chuva na praia só ia largar do nosso pé quando a gente enfrentasse aquela provação de um dia nublado debaixo de um sombreiro, com direito até a uma garoa fina. A resposta veio ontem, quarta-feira, dia de sol brilhando, céu azul, sem nuvens no céu. A insistência valeu, viu, São Pedro? #chupa

// eu e o iraniano, o iraniano e eu

Foto: APAbri a bolsa, peguei a carteira e tirei de lá R$ 20 – a propósito, o único dinheiro fora as moedas, porque eu tinha prometido que não ia sacar mais nada (pelo simples motivo de que quem não saca, não gasta 😉 ). Aí fui na fila do Mc Donald’s comprar aquela velha casquinha de R$ 2.

Do meu lado, para um iraniano. Sim, um iraniano de verdade, barbudo, cabelo ondulado, com a camisa do Irã e uma estola (?) / faixa com o nome do país pendurado no pescoço. Bem cara de petroleiro, mesmo. Milionário, podre de rico, A CARA DA RYKEZA. O objetivo do iraniano na fila: comprar uma casquinha de R$ 2.

Mas a criatura desfilava entre os caixas, procurando o menu, com uma verdadeira fortuna na mão, com tanta displicência que deu vontade de ir lá dar um sustinho. Eu lá, só então me dando conta que tava agarrada na minha nota de R$ 20 como se ela fosse sair correndo e embarcar na carteira do moço rumo a Teerã ¬¬

O ricaço iraniano andava tão despreocupado com aquela fortuna equivalente a uns três meses do meu salário, distribuído em notas de R$ 20, R$ 50, R$ 100, muitos euros, muitos dólares e três moedinhas de R$ 0,50, que até a moça do caixa tava com medo que o dinheiro saísse andando sozinho e fosse dar um passeio, tomar um banho de mar. Um verdadeiro clima de tensão instalado no ambiente e todo mundo achando que o homem ia fazer o oba oba gastronômico no shopping inteiro.

Desinfeliz, pagou com R$ 20, pegou o troco e nem se dignou a enfiar o dinheiro no bolso. Foi andando com o sorvete ameaçando pingar naquela fortuna que parecia ter pouca ou nenhuma importância pra ele. Nessa hora, quase que eu virei pra moça do caixa e disse:

– Binha, cobra a minha aí na dele também 😉

Mas me contive e me recolhi ao meu caminho de casa: eu, minha casquinha, meus R$ 18 e nada de iraniano. #tatendocopa

// ensaio sobre a burocracia

juros-bancáriosQuem anda comigo sabe que eu sou péssima em fazer conta. Mas soma, subtração, multiplicação do salário e regra de três eu sei fazer. Só o necessário mesmo pra não levar pequenos calotes na vida e para não passar vergonha nas matérias que exigem uma continha ou outra.

Não sou matemática, não sou engenheira, nem professora, nem caixa de supermercado, nem caixa de banco. Mas o funcionário da Caixa Econômica Federal que me atendeu na sexta-feira passada era. E nada mais justo do que ele fazer o cálculo dos juros de um boleto bancário que o cliente chega para pagar e onde constam instruções de cálculo ao caixa. Não foi exatamente o que aconteceu.

Cheguei na agência da Caixa Econômica da Graça às 11h30. Três pessoas aguardavam para ser atendidas por dois funcionários. Aguardei por cerca de 10 minutos para que a máquina que imprime as senhas voltasse a funcionar e, finalmente, imprimisse a minha senha de atendimento. Depois de muita espera, percebi que o vigilante a quem eu tinha pedido ajuda tinha esquecido de mim – e das outras quatro pessoas atrás de mim na fila.

Quando ele finalmente lembra e eu consigo o meu papel, descubro que uma pessoa já tinha a mesma senha que eu. Educadamente, dei a preferência ao rapaz que chegou antes e, na minha vez, ouço a seguinte informação do caixa na minha frente:

– Você tem que calcular os juros na gerência.
– Mas está escrito aí como calcular, moço. Eu mesma calculo aqui…
– Você tem que calcular na gerência.

Perguntei se precisava pegar outra senha e ele me disse que apenas para o atendimento na gerência. Não tinha ninguém na minha frente, mas achar a gerente foi outro parto. E lá se iam 40 minutos de espera para pagar um boleto, no qual estavam escritas as instruções de cálculo dos juros ao “senhor caixa”.

Encontro a gerente e, olhando o meu boleto meio de lado, ela informa que vai precisar descobrir se o sindicato ainda é atendido pela agência. Mais 20 minutos até a moça voltar com o meu boleto com os juros calculados e o valor escrito a mão – A MÃO!! Nada de boleto nosso reimpresso ou algo que justificasse que os juros fossem calculados na gerência.

De volta ao caixa que me atendeu, consegui pagar o meu boleto 1h30 depois de ter entrado na agência. Os juros, que não poderiam ser calculados pelo caixa e nem por mim, equivaliam à incrível soma de R$ 2. E viva a burocracia!

Eu, o bêbado e o vinho do bozó

6813853903_22f9351c91_zA probabilidade de acontecer algum episódio especial – nem sempre no bom sentido – quando duas Clarissas marcam de se encontrar no mesmo lugar e imensa. Aconteceu.

Sentei em uma das mesas do Meia 8, no Largo da Dinha, e pedi uma Cola-Cola para esperar a xará. Eram 19h13 e, diferente das outras mesas, quase todas com mais de uma pessoa, meu ambiente era propício para aproximações de malucos variados. Pois bem:

– Oi, tia…
– Hum…
– Boa noite!
– Boa noite! – achei tão educado que respondi.

A figura, que devia beirar os 40 e, claro, não tinha idade para me chamar de tia, puxou a cadeira e sentou. Bêbado, camisa verde surrada, colocou no chão um balde de manteiga com algumas roupas e começou a ladainha.

– Tia, não me leve a mal não, eu vim andando de Feira de Santana (!), só foi o rapaz ali atrás que me deu R$ 4. Não me leve a mão não, eu tô precisando de R$ 8 para…

Terminei a conversa sem saber para que eram os R$ 8. Enquanto tentava me convencer a dar o dinheiro, o rapaz me mostrava o balde cheio de roupas e apontava para uma garrafa de vinho tinto suave Pérgola, quase cheia.

– Eu tô precisando de R$ 8 para… Essa aqui – apontando para a garrafa – eu achei num bozó (!)

– Eu não tenho dinheiro trocado, moço, só tô com o cartão.

– Eu passo, peraí, olhe aqui que eu volto! – E foi levantando.

– Você passa o que, rapaz?

– No cartão.

– Como é que é??

– Então me dê o dinheiro mesmo… – foi sentando.

– Não colega, vá pedir pra outra pessoa, na moral.

– EU TROCO! Me dê aí que eu troco seu dinheiro – levantando de novo.

– Se você tem troco pra me dar, tá pedindo por quê?

– Não, tia, é porque eu preciso de R$ 8 pra… – sentou.

– Você tá bebendo, cara, eu não vou te dar dinheiro pra você beber.

– Mas essa aqui – abraçado, literalmente, com a garrafa de vinho – eu achei no bozó, até os orixás ajudam.

– Então vá pedir pra outro, não vou te dar dinheiro, não…

– Poooorra, beleza, beleza. Desculpa o incômodo aí, tia.

E foi embora, abraçadinho com a garrafa de vinho achada num bozó da Federação. Vou te dizer, no meu tempo, bozó se fazia com cachaça ou, no máximo, com um litro de Sangue de Boi, Cantina da Serra…

// fui exercer a minha cidadania

Fui lá exercer a minha cidadania, como dizem por aí, né? E como outros dizem também, fui exercer o meu direito que, na verdade, é uma obrigação, um dever. Um negócio que me rende uma multa, ou impossibilidade de fazer um monte de coisas, caso eu não o exerça. Meio contraditório, até, digamos assim. Mas fui mesmo assim: melhor acreditar que venha algo de bom, do que achar que vai continuar sem funcionar.

Pois bem. O corredor da Vitória parece a 25 de março em véspera de dia das mães (com exagero e tudo, claro). O engarrafamento começa – a partir de onde eu consegui ver – da orla da Barra, e vai, pelo menos, até o Campo Grande.

Tem criança em carrinho, menino dando dedada na urna acompanhado dos pais, criança em carrinho de bebê, com óculos piscante do Homem Aranha e até capa do Batman – ou de Joaquim Barbosa, quem sabe! Ou seja, estamos cheios de futuros super-heróis começando a se divertir no dia de “exercer a tal da cidadania”. O clima é de almoço em família logo em seguida, esperança, coisa de dia feliz, cidade movimentada.

Mas os pequenos, na verdade, mal sabem o significado de exercer a tal da cidadania. Nunca vi o Corredor da Vitória tão colorido. É bandeira de candidato, cavalete, santinhos distribuídos a torto e a direito. A cidade suja e uma sensação de que, na verdade, estamos decidindo ali, na hora, a caminho da urna, quem vamos escolher para nos representar pelos próximos quatro anos – tempo pra cacete, inclusive!

Se fosse o contrário, os santinhos vinham mais ou menos assim:

Mas não, vêm com o número do candidato bem grande, para você não errar na hora de votar. Um moço fazendo boca de urna de um candidato, me oferece, educado:

– Já tem vereador, moça?

– Peguei o santinho e guardei no bolso, pra ver com quantos chegava até o meu destino, o Colégio Estadual odorico Tavares, na Vitória.

Mais lá na frente, outro oferece outro santinho pra duas moças na minha frente, devidamente acompanhadas de umas crianças de cinco ou seis anos, no máximo. Uma delas recusa a oferta e dispara:

– Toda eleição é a mesma coisa, já tô até vacinada. É prefeito prometendo, vereador prometendo. Daqui a quatro anos, nunca vi nem a cara de quem eu votei. Falta de vergonha na cara tem até nome!

Segui o meu caminho e recebi o meu segundo santinho de um grupo de umas 10 meninas, fazendo ali o serviço da boca de urna só pra garantir o trocado do domingo, né?

– Vote Fulaninho, pelo menos com esse você não tem problema com a saúde, morre logo!

De uma sinceridade sem tamanho, mas arrancando risadas e distribuindo o estoque inteiro. Cada um na sua, né?

Agora, me pergunto: com tanto papel no chão, cartazes colados na cidade toda e adesivos no peito, como se mede a popularidade do candidato? Pela quantidade de santinhos distribuídos ou pelo número exagerado deles jogos no chão, pisoteados por quem, na maioria das vezes, nunca nem ouviu falar do tal do candidato?

Cidadania devidamente exercida, praticamente sem filas, volto para casa. Agora, é hora de dar plantão até sabermos, ainda hoje, quem são os 43 eleitos para tomar conta do plenário da Casa por mais quatro anos. Apertem os cintos, meu povo!

// bonito, hein Salvador?

O que nós, baianos, soteropolitanos, reclamamos faz tempo, virou reclamação de artistas também: a falta de espaços para shows em Salvador. Ou o TCA, ou o Bahia Café Hall, ou a Concha Acústica, ou o quê mesmo? O Parque de Exposições? O Wet? Fica difícil, né?

Pois bem: a cantora carioca Isabella Taviani anunciou nesta sexta-feira (28) que fará show em Salvador no dia 3 de novembro, na inauguração da The Hall, onde funcionava a antiga Madrre. Segundo Isabella, a nova casa de shows, na orla da Pituba/Costa Azul, pretende se estabelecer como alternativa para o palco de MPB. “Vamos reinaugurar e torcer para que Salvador ganhe mais esta opção de casa noturna para est estilo. Não dá para só esperar TCA”, disse.

Antes de anunciar a data do show, Isabella falou sobre o problema na capital baiana. E está certíssima. Alguém se lembra quando grandes shows chegaram a Salvador? Não, justamente porque falta espaço. Nos tweets, a cantora disse:

Bonito, né Salvador?

// histórias de redação e outros gracejos cotidianos

Comprei o livro A Sucursal – Os 30 anos do Estadão na Bahia, do agora colega Biaggio Talento, há quase um ano. Mas na correria dos dias cheios, acabei começando a ler os relatos de 59 casos no mínimo cômicos – se alguns não fossem trágicos – na última sexta-feira (15). Com pena de acabar em uma sentada, guardei as últimas páginas e acabei de ler hoje. Tanto rodeio é para elogiar o apanhado de casos e para contar uma história que aconteceu em outubro do ano passado.

Ia dizer que se tratava de um caso da “minha geração”, mas logo me lembrei que a história com certeza passou pela mão de Biaggio, na Agência A TARDE, e que foi disputada quase na base da aposta entre os repórteres na ocasião. Não me lembro quem foi o “felizardo” a acompanhar o fato de perto, mas a história rendeu boas risadas na redação ao longo de todo o dia – coincidentemente, o dia do meu aniversário – 14/10/2011. Todo mundo queria fazer a matéria contando a história da mulher que colocou uma lista com os nomes dos vizinhos na boca da mãe prestes a ser enterrada – uma espécie de “ebó vingativo” contra o pessoal.

O fato, na verdade, aconteceu no dia 7 de outubro de 2011, durante o velório da índia pataxó hã hã hãe Marinei dos Santos Rodrigues, de 51 anos, vítima de câncer, na cidade de Camacan, no sul do Bahia. O problema é que a filha de Marinei, Marileide Dias Conceição, 30, não acreditou que a doença fosse, de fato, o motivo da morte da mãe. Para Marileide, a índia havia sido vítima de um ritual de magina negra, elaborado pelos vizinhos, e resolveu se vingar com um feitiço à altura.

Durante o velório, Marileide expulsou todos da casa, onde o corpo era velado. A sós com a mãe, fez uma lista com o nome dos vizinhos da Rua do Sarampo, onde a índia morava, colocou na boca da defunta junto a uma moeda de R$ 0,50 e mandou lacrar o caixão, que seguiu para o enterro no cemitério local.

Dias depois, os vizinhos souberam do fato e, indignados e desesperados, procuraram o delegado da cidade, pedindo a exumação do corpo. Em meio à confusão, Marileide foi levada à delegacia, onde confirmou a história e voltou a dizer que a morte da mãe era resultado do “ebó” feito pelos vizinhos.

Como não poderia deixar de ser, e evocando, mais uma vez, a providencial declaração do ex-governador baiano Otávio Mangabeira: “pense num absurdo, na Bahia tem precedente”, a filha da índia foi “incorporada” por um espírito dentro da delegacia, espírito esse “expulso” do corpo de Marileide por um pastor evangélico e um policial, adepto da religião.

Até o administrador do cemitério teve que controlar algumas pessoas, que foram ao local na tentativa de exumar o corpo e retirar o papel da boca da índia. O caso acabou encerrado pelo cansaço, já que o delegado disse não poder abrir o túmulo e aconselhou que os vizinhos procurassem a Justiça.