// você corta um verso, eu escrevo outro…

Foto: Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, em 26 de junho de 1968 Da esquerda para a direita, as atrizes Tonia Carreiro, Eva Wilma, Odette Lara, Norma Bengel e Ruth Escobar / Crédito: Agência JB / Jornal do Brasil

No final dos anos 1960, auge da ditadura militar no Brasil, em que a censura atingia a quase tudo que se passava pelas mãos dos censores do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), o compositor carioca Paulo César Pinheiro escreveu uma obra prima. A música, feita em parceria com Maurício Tapajós, certamente ficaria retida nos arquivos do DOPS. Mas, se passasse pelo crivo do regime, seria gravada pelo grupo MPB-4. E passou!
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História dos porões a um passo de ser revelada

Abertura dos arquivos deve trazer à tona detalhes obscuros da história do país

Por Clarissa Pacheco

“Minha irmã é desaparecida política. Segundo o relatório oficial do Exército, ela é morta no dia 8 de abril de 1974. A gente só tem essa informação oficial”. O relato é de Diva Santana, irmã de Dinaelza Santana Coqueiro – nascida em 22 de março de 1949 – que partiu para a guerrilha do Araguaia, na divisa entre Goiás, Pará e Maranhão, em 1971, com o esposo, Vandick Reidner Pereira Coqueiro, também desaparecido. Dinaelza foi vista viva pela última vez no dia 30 de janeiro de 1973 por companheiros de luta do Araguaia. Suas datas de morte oficiais não dizem tanto quanto poderiam. Onde foram parar os corpos? O que aconteceu com o casal antes de serem mortos? Como foram mortos, em que circunstâncias? Não se sabe se foram previamente torturados. Talvez os corpos tenham sido jogados ao mar ou incinerados, mas também não se sabe. A abertura dos arquivos baianos da ditadura militar deve trazer às famílias, se não o consolo, ao menos o alívio por saber o que de fato aconteceu com seus familiares, ainda que mais de 30 anos após o ocorrido.
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30 anos de Anistia: algumas mudanças, poucas soluções

Penitenciária Lemos Brito, Salvador - Foto: Clarissa Pacheco

“Se lembra quando era só brincadeira? Fingir ser soldado a tarde inteira…”

Nunca foi brincadeira. 1964. Tudo o que podia, um dia, talvez, quem sabe, ser brincadeira, virou realidade para um sem número de brasileiros. No dia 13 de dezembro de 1968, quem não era soldado a tarde em inteira, há quatro anos, aprendeu a usar fuzis, pistolas, .38s e .45s. Automáticos ou não. A maioria carregava mesmo um .22, adquirido com toda a dificuldade, e colocava no cinto. Mal sabia como usar. Mas sabia o porquê. Ou não.
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