As virgens juramentadas da Albânia

A notícia da morte da jovem indiana estudante de medicina, de 23 anos,
vítima de estupro coletivo em um ônibus de Nova Délhi no dia 16 de
dezembro, me fez lembrarvoutra espécie de “crime” sexual de que tomei
conhecimento essa semana.

Um parêntese: a capital indiana Nova Délhi é recordista de crimes sexuais
entre as principais cidades da Índia, com um estupro a cada 18 horas. É
como se 41 mulheres fossem estupradas por mês na cidade. Achou muito?
Salvador registra quase isso também todos os meses: em 2012, a média variou
de 30 a 40 atos de violência sexual por mês.

Fecha parênteses. O número de estupros em Salvador é um assunto a ser
tratado com mais cuidado depois. O que eu chamo de violência sexual, de
gênero, é o que acontece há anos na Albânia, região do Balcãs, sudeste europeu.

O artigo de Claudia Belfort, em seu blog ‘Sinapses’, no Estadão, começa assim:
“Responda em dois segundos se esse retrato é de um homem ou de uma mulher.
Responda em outros dois segundos se a pessoa fotografada parece viva ou morta”.

Virgens_JillPeters

A mim, ambas parecem vivas. E parecem também dois homem. Mas com a decisão e a serenidade que só poderiam ser encontradas em uma mulher – que me desculpem os rapazes. E, a propósito, sim, são mulheres!

São remanescentes de uma tradição rara na Albânia, ditada pelo Kanum, um código de honra que vigorou até o início do século XX e que limitava a liberdade das mulheres. Em suma: às senhoras, apenas o direito (dever?) de cuidar da casa e dos filhos. Nada de trabalhar, dirigir, beber, fumar, ter herança e – pasmem – cantar.

A não ser… que se declarassem homens e se transformassem em tal, com direito a um voto público de virgindade e celibato. Foi o que muitas fizeram. Hoje, há pouco mais de 100 mulheres chamadas “virgens juramentadas da Albânia”. E essas mulheres, cá, do alto do meu humilde entendimento, são também vítimas de uma violência: em seus direitos, suas escolhas e convicções enquanto seres humanos, simplesmente.

Elas são tema de um documentário que está sendo produzido pela fotógrafa norte-americana Jill Peters. As duas fotos, antes belas e agora surpreendentes, são da autoria de Peters e integram o documentário. Leia na íntegra o artigo de Claudia Belfort aqui.

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// ‘que sujeito mais sem vergonha, esse caetano’

“Que sujeito mais sem vergonha, esse Caetano! Puta que pariu, o que é que ele tá pensando que ele é? Nós estamos aqui fazendo um diabo de uma ditadura, torcendo pescoço de gente, matando gente e Caetano nem fala na gente, vem com negócio de margarina! O diabo da margarina é que o Brasil pôde manter sua auto-estima com aquela revolução formada e se levantar imediatamente quando a ditadura começou a falir. Nossa senhora! O que esse caras fizeram pelo Brasil é um negócio que não há quem pague!” (Tom Zé)

Lembra da margarina de Caetano? De Gal? Da Tropicália? Não? Essa aqui, ó:

‘Baby’ foi composta por Caetano Veloso no final dos anos 1960, quando o baiano encontrava-se exilado por conta do Regime Militar Brasileiro. ‘Baby’ foi encomendada por Maria Bethânia, que pedira ao irmão uma música que fizesse referência à inscrição “I love you”, que era vista constantemente impressa em camisetas.

No livro ‘Verdade Tropical’ (1997), Caetano explica que Bethânia “dizia mesmo que a canção tinha que terminar dizendo: ‘Leia na minha camisa, baby, I love you’. Era um modo de comentar, com amor e humor, a presença de expressões inglesas nas canções ouvidas – e nas roupas usadas pelas pessoas comuns”.

Essa e outras histórias ligadas ao Tropicalismo são contadas no documentário ‘Gal: da Tropicália aos dias de hoje’, de Carlos Ebert e Marcello Bartz, que encontrei ontem, bem por acaso, enquanto passeava pelo Youtube. O fio condutor é a carreira da “musa dos tropicalistas”, Gal Costa. Vale a pena assistir:

// ‘vocês não estão entendendo nada!’

“Eu só gostaria de explicar que essas pessoas que subirão ao palco são do Brasil. E um dos motivos que os trazem aqui é porque a política não permite que eles façam sua música no Brasil”. Assim, e ao som de A Minha Menina, começa o primeiro trailer oficial do documentário Tropicália, divulgado ao público na última semana. E para quem gosta dos tropicalistas Caetano, Gil, Tom Zé, Mutantes e outros nomes como Jorge Ben e Torquato Neto, já pode começar a contagem regressiva. O longa, dirigido por Marcelo Machado, deve chegar aos cinemas do Brasil em 21 de setembro!

Um dos movimentos culturais mais importantes do Brasil, o Tropicalismo será mostrado no filme de Machado através de imagens históricas e inéditas, além de depoimentos atuais de artistas que fizeram o movimento, como Sérgio Dias, Tom Zé e o próprio Caetano Veloso, uma das figuras mais importantes da época.

Alguns trechos do filme, mostrados no trailer recém-divulgado, me lembraram o depoimento da arquiteta e urbanista Angela Franco, uma das personalidades que mais contribuíram com o Movimento Feminino pela Anistia, em Salvador, para o meu TCC, o livro reportagem Em nome da liberdade: o Movimento Feminino pela Anistia na Bahia:

“Os estudantes vivenciavam, ao mesmo tempo, política, luta ideológica e pela derrubada do regime [militar], um grande movimento cultural, impulsionado pela ascensão do Tropicalismo e por acalorados debates na área de cultura, que indicavam a ruptura com o sistema estabelecido. Nas ruas da cidade, o debate cultural e as canções tropicalistas – compostas pelos considerados ‘psicodélicos’ Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Nara Leão e pelos Mutantes – embalavam os festejos e as mobilizações políticas, quase sempre reprimidas pela polícia. A ideologia presente nas músicas do Tropicalismo se assemelhava com o que se passava entre os militantes políticos da época. Mas também havia um debate, já que, enquanto uns queriam fazer prevalecer o nacionalismo, outros defendiam a cultura pop, impregnada por uma nova ideologia, de reação à estrutura sedimentada.

‘O Tropicalismo me encantou desde sempre, mas eu nunca deixei de gostar de Chico Buarque, por exemplo, que era colocado pela opinião púiblica como ‘o outro lado’, embora ele negasse isso. Quando eu vi, pela primeira vez, Caetano cantando Alegria, Alegria [Caminhando contra o vento / sem lenço e sem documento / no sol de quase dezembro / eu vou…], nunca mais fui a mesma! Aquilo começou a fazer a minha cabeça, comecei a me interessar muito mais pelas questões políticas e culturais. Eu gostava desse comportamente libre, liberto!”, confessa Angela, lembrando a letra da canção que deu ao baiano Caetano Veloso, mesmo sob vaias da plateia, o quarto lugar no III Festival MPB de 1967, exibido pela Rede Record, chamado ‘Festival da Virada’. No mesmo evento, foram premiadas as canções Ponteio (1º lugar, de Edu Lobo e Capinam), Domingo no Parque (2º lugar, dos também tropicalistas Gilberto Gil e dos Mutantes) e Roda Viva (3º lugar, de Chico Buarque)”.

(PACHECO, Clarissa. Em nome da liberdade: a luta feminina pela anistia na Bahia. Salvador, 2011, p. 62-63)

Veja o primeiro trailer oficial de Tropicália:

// ‘Menino Joel’ chega ao cinema

Miriam da Conceição, mãe de Joel da Conceição Castro

O assassinato do menino Joel da Conceição Castro, de 10 anos, no Nordeste de Amaralina (Salvador), completa 17 meses em 21 de abril. Mas o crime que comoveu a Bahia ainda não tem solução. Mas a força da mãe Mirian da Conceição, a resignação do pai Mestre Ninha e a emoção do irmão Jeanderson Castro prometem emocionar o público e não deixar que se esqueça de um dos crimes mais chocantes dos últimos anos: Joel, que sonhava ser mestre de capoeira, como o pai, foi morto com um tiro na cabeça, disparado por um policial militar, dentro da própria casa, em 21 de novembro de 2010.

A história, que também figurou por semanas nas manchetes dos jornais, foi parar no cinema. Para o diretor do longa ‘Menino Joel’, o italiano Max Gaggino, o trabalho apresentado na quarta-feira, 18, para familiares e convidados, não busca apontar um culpado. “É um estudo que busca mostrar os motivos de tanta mortandade infantil em Salvador. Demos oportunidade a todos de se pronunciarem”, disse. Ainda segundo Gaggino, que se tornou amigo da família de Joel, o documentário recebeu apoio da comunidade do Nordeste de Amaralina. “A comunidade abraçou o projeto. Foi uma história que tocou todo mundo”, afirmou.

Ao longo de mais de duas horas de documentário, especialistas, defesa, Polícia Militar, Civil, amigos e familiares de Joel traçam a história do garoto, sob o pano de fundo do dia-a-dia na comunidade, o cenário de violência, ausência do Estado e negligência com as populações de bairros periféricos. “O sonho dele era chegar até um momento desses, de ser reconhecido. Infelizmente, foi de uma maneira triste”, desabafou o pai do garoto, Joel Castro, 43, que ainda aguarda o andamento do processo na Justiça. “Às vezes, é tão lenta que a gente cansa”, disse.

O documentário é o primeiro trabalho do diretor Max Gaggino que chega aos cinemas, e tem produção de Rodrigo Cavalcanti. A exibição para o grande público será divulgada através do site oficial e pela página no Facebook. A expectativa é que a estreia aconteça nos primeiros dias de maio.

Veja o trailer do filme:

// ganhadeiras!

Exibição do documentário "Ganhadeiras" | Fotos: Clarissa Pacheco | 19.10.2011

Pronto, gente. Gravei um documentário! Logo eu, que detesto TV, não me entendo com audiovisual, acho tudo muito estranho e continuo imaginando, de vez em quando, que as pessoinhas moram dentro dela, resolvi gravar um documentário. Eu e mais três amigas: Carol Pires, Donminique Azevedo e Karina Brasil

Na verdade, é um mini. São 12 minutos sobre as Ganhadeiras de Itapuã, um grupo cultural de samba de roda que é formado por mulheres dos 8 aos 80 anos e que fazem um trabalho lindo de resgate das tradições culturais do bairro.

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