// #danaaaaaaado

as-manchetes-de-hoje1Daí que chega aquele momento em que a propaganda é realmente a alma do negócio: até do jornalístico – ou do jornaleiro, nesse caso específico. Na faculdade onde eu estudei, aquelas piadinhas que incentivavam a rivalidade entre jornalistas e publicitários corria solta! E olha que tínhamos, em algumas disciplinas, os mesmos professores – afinal de contas, são dois cursos de comunicação social.

Mas uma das máximas que eu mais ouvia, principalmente naquela fase de amor roxo dos primeiros semestres – e dava boas risadas -, essa eu lembrei hoje de manhã no buzu. E olhe que ela nunca pareceu tão apropriada para uma ocasião: “O jornalista relata os fatos, o publicitário relata o que quer…”.

A outra versão parecida, talvez menos, talvez mais preconceituosa com os colegas, mas desta vez bem famosa, é do George Orwell: “Jornalismo é publicar tudo aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade”.

Verdade ou mentira – com o perdão do trocadilho infame aos colegas e amigos publicitários -, contava um cobrador que entrou no buzu antes das 7h que um jornaleiro safado passou a perna em metade dos passageiros do ônibus que ele estava.

– Jornaleiro mais cínico, rapaz! – dizia ele com um exemplar do Jornal Massa dobrado nas mãos. E continuou:

– O cara entrou no buzu gritando: “GENTE, OLHA, O PADRINHO DO MENINO DE ITAPUÃ FOI SOLTO E JÁ FOI FUZILADO!!

Como notícia ruim vende mais do que água no deserto – e isso a gente aprendeu na faculdade, nos primeiros semestres, na mesma época da piada com os publicitários – o esperto saiu com os bolsos cheios.

Contava o cobrador, indignado, diga-se de passagem, que ele e mais dez passageiros do coletivo, no mínimo, tinham coçado os bolsos e comprado o jornal só para ver a notícia do fuzilamento. Quando levantaram a cabeça, o jornaleiro já tava espalhando a mentira em outra freguesia.

– Amanhã aquele mentiroso vai entrar no buzu de novo, ele vai ver. Você é cínico que só a desgraça, viu, véi?! Vou dizer bem assim pra ele! Até hoje eu procuro a notícia do fuzilamento e o cabra tá lá, vivinho da silva. Mas rapaaaaz….

Não queria causar discórdia ainda maior, amigo cobra, mas temo ter que lhe dizer que, além da mentira, o safado ainda lhe vendeu jornal passado. A notícia de que o padrinho do menino foi solto – mas não fuzilado – foi há dois dias, é notícia velha, jornal de ontem. Tivesse comprado o jornal de hoje, teria lido que o rapaz tomou foi um “chá de sumiço”, que Joelma foi na delegacia denunciar Chimbinha por difamação e que Compadre Washington tá lá, na capa, bem bonito, sem bigode! #Danaaaaaado

// rotina? que rotina?

natachy - vivniciusA falta de rotina é, sem dúvidas, uma das melhores coisas do jornalismo. É por isso que quando alguém me pergunta qual a minha rotina de trabalho, eu abro os dentes logo e digo:

– Não tenho!

Tem dias como ontem, em que eu cheguei em casa quando faltava menos de meia hora para já ser hoje, sacudindo meio quilo de terra de entulho, misturado com pó, cimento, barro, lama, com os dois olhos brigando para ficar abertos – se tivesse um terceiro, ele brigaria também -, ainda com o crachá pendurado no pescoço e com o corpo gritando duas coisas no meus ouvidos: BANHO, CAMA!!

Tem dias em que você passa o dia inteiro debaixo do sol, esperando acontecer o que não vai acontecer – ou que talvez aconteça, quando você não está mais lá esperando. E aí você volta, porque missão dada é missão cumprida – né não?!

Tem dias que você foge dos engarrafamentos como se eles pudessem ser driblados, só porque você precisa chegar. Às vezes, você chega. Às vezes, volta pra redação só com as reclamações dos motoristas que perderam o trabalho, a faculdade, um futebol, o médico, a entrevista de emprego. Tão ou mais frustrado que eles…

Tem dias que você aguarda confortavelmente em um sofá aconchegante, com a pauta na mão, para entrevistar o desembargador. E tem dias que você sai correndo e sobe numa árvore para resgatar a bendita pauta, que voou com a ventania.

Tem dias que você vai pra rua quando queria ficar na redação. Mas também tem dias em que você fica na redação, frustrado, achando que tudo tá acontecendo lá fora e você tá isolado no mundo, no alto de uma montanha, sem trenó e sem ninguém pra te tirar dali, por um longo inverso, gelado e rigoroso.

E tem dias que você fica na redação revirando documentos que você nunca tinha encostado uma vez na vida; descobrindo que o Código Penal tem 361 artigos, matando a curiosidade do que são os artigos que os presos dizem que estão enquadrados, já que eles não abrem a boca nunca para dizer que estão na cadeia por homicídio (121), por estelionato (171) ou por estupro (213), por exemplo.

Tem dias que você fica na redação descobrindo coisas que ninguém descobriu ainda, e acaba não usando. E tem dias que você fica sentado esperando um depoimento que para você é importante, mas para quem está dando, é uma espécie de tudo. E aí ele chega. E aí você descobre que não botar o pé na rua pode trazer gratas surpresas, e pode te deixar com a sensação de dever cumprido.

E aí você se sente como eu me senti quando conheci a história dessa moça, quando vi a coragem dela em quebrar o silêncio, quando vi que muita gente não tem coragem, mas que pode, sim, ter uma luz no fim do túnel.

É por isso que eu digo: a melhor rotina jornalística é a falta dela!

P.S. A moça literalmente correndo atrás da notícia na foto acima é a repórter Natachy Araújo, do Diário de Suzano (SP). A Foto foi publicada no blog ‘100 Comunicação’.

// e viva a ignorância

Não desejo a ninguém sentir o ódio que estou sentindo agora. Só para avisar, esse é um post sem foto, simplesmente porque eu não consigo imaginar a ideia de ter que ver, mais uma vez, a imagem que vi hoje quando cheguei em casa. Quem bem me conhece, sabe da minha paixão por história e da importância que dou ao registro documental das coisas. Sou antiga, gosto de papel e tinta, de sujar os dedos. Gosto de ir para a biblioteca e folhear as edições antigas dos jornais, cheias de histórias. Com luvas e máscara e tudo.

E quem me conhece, sabe melhor ainda da minha paixão pelo meu trabalho. E sabe como sou chata, implicante, irritada, pavio-curto, como dizem por aí. Portanto, quando eu digo que tem coisas minhas que são intocáveis, é porque são intocáveis mesmo. E quando eu digo que viro onça, é porque viro mesmo. No meio da minha chatisse, irritação e implicância, se esconde um valor imenso que dou ao meu trabalho e ao dos meus colegas jornalistas. Mesmo que mais da metade das pessoas não se importem com isso, vez ou outra é bom saber que tudo que eu fiz está ali, guardado. Que pode servir, um dia, para mais alguma coisa. E mesmo que eu não toque nunca mais, quero saber que está ali.

Hoje, cheguei em casa depois de um fechamento semanal até as 20h e, ao abrir a porta, dei de cara com o meu trabalho ao longo de oito meses espalhado pelo chão, rasgado, amassado, molhado. Todas as edições do Jornal da Metrópole, de 25 de novembro de 2011 até 13 de julho de 2012. Todas espalhadas pelo chão, simplesmente porque os pedreiros que estão fazendo uma obra que não acaba nunca na minha casa conseguiram achar as edições que estavam guardadas, arquivadas, organizadas. Acharam e colocaram em prática a velha teoria dos “usos e gratificações”.

Aliás, usos e gratificações no dos outros é refresco, né? Gritei, chorei, xinguei e desejei todo o mal do mundo para as duas figuras. Sim, eu sou gente, sou de carne, osso, sangue, nervos e os meus nervos, definitivamente, não são de aço. Todas as edições do Jornal da Metrópole estão disponíveis em PDF, online. Mas nada vai diminuir a minha raiva, a minha irritação.

Nada vai simbolizar tão bem o desrespeito que as pessoas têm pela minha – tadinha – profissão. Sentei, juntei folha por folha e consegui recuperar, mal e porcamente, cinco edições – de 30, cheias de histórias, que estavam guardadas no seu devido lugar.

A propósito, bom lembrar que obras não são o meu forte: da última vez, tive que secar a minha edição d’O Diário de Anne Frank com um secador de cabelo, por umas duas horas. Me restou um livro inchado, manchado, amarelado. Desta vez, além de perder todo o meu portfólio dos últimos oito meses, constatei que os adoráveis rapazes – para não dizer o contrário -, contratados para trocar o piso e pintar as paredes, conseguiram fazer com que uma TV não ligue, pintar a estante, o sofá, a mesinha de centro, a mesa da sala, a minha Tv, o telefone e a porta. Curiosamente, alguns pedaços da paredes simplesmente não foram pintados.

E viva a ignorância!

// pernambués-rio vermelho: de bike!

Uma semana depois, poderia até dizer que o relato perdeu a graça e que eu deveria ter escrito no dia que aconteceu. Mas confesso que minhas pernas roubaram a energia da cabeça e das mãos, o que me obrigou a deixar para escrever hoje – sim, só poderia fazer hoje, porque a matéria que levou ao relato (é isso mesmo?) saiu hoje! \o/\o/

Seguinte: na semana passada, decidimos lá no Jornal da Metrópole fazer uma matéria sobre mobilidade urbana – do ponto de vista de quem transita por Salvador, seja de carro próprio, de ônibus, de táxi, moto, bicileta ou – como boa parte faz – de ônibus.

A ideia era fazer o trajeto entre a sede do Grupo Metrópole, em Pernambués, até o Largo de Santana, no Rio Vermelho. E assim fizemos: dois colegas seguiram dirigindo, um terceiro foi de táxi, outro de ônibus e eu, acompanhada do amigo Roquinho (Som do Roque), fui pedalando.

Diferente do que esperava, não fui a última a chegar! rsrs Mas a expectativa da maioria se confirmou: com certeza chegaríamos antes de quem fosse de ônibus. E chegamos com folga. Em 45 minutos, fizemos pedalando o trajeto de cerca de 12 km.

Bom, vamos ao relato: o primeiro desafio foi descer a Rua Numa Pompílio Bittencourt, conhecida também como Ladeira do Detran (para quem mora em Salvador, é uma ladeira enorme exatamente ao lado do Detran). E que ladeira! Minha coragem pra descer ladeiras já não é lá essas coisas e o meu freio traseiro estava bem baixo… Ou seja, eu colava o punho no freio e a bike continuava descendo, bem alegrinha… Depois de uma pausa antes de primeira descida mais íngreme, seguimos (quase) tranquilos pela contramão. Sim, pela contramão. A falta de ciclovias ou ciclofaixas em Salvador – ou, ao menos, a falta de integração dos pocuos quilômetros que existem com o sistema viário, nos obriga a pedalar em alguns trechos pela contramão.

Assim fizemos, até a chegada à passarela que liga a Rodoviária de Salvador ao Shopping Iguatemi. Atravessamos a passarela empurrando a bike, no fluxo dos pedestres. Após 10 minutos da saída em Pernambués, estávamos em frente ao shopping, pegando mais um trecho considerável na contramão. Esse trecho, especificamente, entre o Iguatemi e a entrada do Hiper Posto, nos obrigou a descer da bike algumas vezes, já que acabávamos ficando de frente a motociclistas que aproveitavam os corredores para fugir do engarrafamento – sem muito sucesso – e com pedestres.

Finalmente, entre o Hiper Posto e o Shopping Itaigara, um trecho no mesmo fluxo que os carros, ônibus, caminhões, etc… Pegamos o primeiro engarrafamento do dia. Explico: os carros enfrentaram o engarrafamento, mas nós conseguíamos fugir um pouco, já que aproveitávamos os corredores. Mas na saída do Itaigara, não tive escapatória. Fiquei na frente de um ônibus e ao lado de um caminhão, que tentava sair já algum tempo.

Pronto, atravessamos um trecho da Avenida ACM e estávamos na pista que nos levava ao parque Júlio César. Aí a minha falta de frequência nas pedaladas deu sinal de vida rsrs Numa subida leve, já estava com a língua para fora. Pedalei mais devagar, desci a marcha até chegar à Avenida Manoel Dias da Silva, na Pituba. Com mais fôlego, seguimos para o nosso primeiro – e único! – trecho em ciclovia. Passamos pela Pituba e chegamos até o Quartel de Amaralina pela ciclovia que, na verdade, serve muito mais como espaço de lazer do que como integração com o sistema viário da cidade. Mas que, sem dúvidas, dá aquela tranquilidade de não estar em meio aos carros.

Completamos 40 minutos de pedalada com mais um trechinho na contramão e chegando à Rua Osvaldo Cruz, já no Rio Vermelho: na minha humilde opinião, o pior trecho em que já pedalei para me manter na margem direita da pista. Na Osvaldo Cruz, a margem direita parece mais uma série de quebra-molas, de tão irregular que é. Ainda há uma série de buracos e algumas bocas de lobo, que acabam obrigando a gente a desviar e fazer alguns zique-zagues.

Vai lá que a pressão de pedalar ao lado de pontos de ônibus e ter os “gigantes” atrás da gente não é das sensações mais agradáveis. A impressão é que os ônibus vão passar de vez levando você a bicicleta junto. Para quem não tem muita experiência de trânsito como eu, a alternativa é aceitar que pode estar sendo xingada pelo motorista e se manter no meio da faixa, na frente dele e impedindo que ele siga e lhe ultrapasse. Explico, de novo: se o ciclista se coloca na margem direita, o motorista do ônibus se sente à vontade para seguir na pista e o risco de que você cai, nesse trecho especificamente, é grande, já que além da pista irregular, o acostamento é quase um buraco e fica cheio de pessoas que aguardam nos pontos.

Seguimos mais um trecho na contramão por uma das transversais da Osvaldo Cruz até, finalmente, chegarmos ao Largo de Santana. Quase 12 km em 45 minutos. Segundo meu amigo Roquinho, um tempo legal para quem não está pedalando com frequência! \o/\o/ Não foi necessariamente um trajeto difícil. Foi até bem tranquilo, mas serviu para reforçar que Salvador ainda é uma capital “ingrata” com os ciclistas. Cada vez mais vejo pessoas usando a bike para ir ao trabalho, à faculdade, para chegar a outros compromissos, como forma de lazer. Ou, simplesmente, gente que está disposta a isso. No entanto, Salvador ainda está muito aquém de cidades próximas, como Aracaju (SE), que tem um trânsito mais organizado e uma integração com ciclovias que funciona – tudo bem, Aracaju é uma cidade menor, mas mesmo assim, dá para percer que está um passo à frente de Salvador.

Já escrevi demais! hehehe Recomendo que leiam a matéria de capa do Jornal da Metrópole de hoje (22), assinada pelo colega Adalton dos Anjos. Tá bem legal, basta clicar na imagem! 😉

Ah! Pra quem quiser encarar as pedaladas, pode começar clicando aqui e aqui!

// histórias de redação e outros gracejos cotidianos

Comprei o livro A Sucursal – Os 30 anos do Estadão na Bahia, do agora colega Biaggio Talento, há quase um ano. Mas na correria dos dias cheios, acabei começando a ler os relatos de 59 casos no mínimo cômicos – se alguns não fossem trágicos – na última sexta-feira (15). Com pena de acabar em uma sentada, guardei as últimas páginas e acabei de ler hoje. Tanto rodeio é para elogiar o apanhado de casos e para contar uma história que aconteceu em outubro do ano passado.

Ia dizer que se tratava de um caso da “minha geração”, mas logo me lembrei que a história com certeza passou pela mão de Biaggio, na Agência A TARDE, e que foi disputada quase na base da aposta entre os repórteres na ocasião. Não me lembro quem foi o “felizardo” a acompanhar o fato de perto, mas a história rendeu boas risadas na redação ao longo de todo o dia – coincidentemente, o dia do meu aniversário – 14/10/2011. Todo mundo queria fazer a matéria contando a história da mulher que colocou uma lista com os nomes dos vizinhos na boca da mãe prestes a ser enterrada – uma espécie de “ebó vingativo” contra o pessoal.

O fato, na verdade, aconteceu no dia 7 de outubro de 2011, durante o velório da índia pataxó hã hã hãe Marinei dos Santos Rodrigues, de 51 anos, vítima de câncer, na cidade de Camacan, no sul do Bahia. O problema é que a filha de Marinei, Marileide Dias Conceição, 30, não acreditou que a doença fosse, de fato, o motivo da morte da mãe. Para Marileide, a índia havia sido vítima de um ritual de magina negra, elaborado pelos vizinhos, e resolveu se vingar com um feitiço à altura.

Durante o velório, Marileide expulsou todos da casa, onde o corpo era velado. A sós com a mãe, fez uma lista com o nome dos vizinhos da Rua do Sarampo, onde a índia morava, colocou na boca da defunta junto a uma moeda de R$ 0,50 e mandou lacrar o caixão, que seguiu para o enterro no cemitério local.

Dias depois, os vizinhos souberam do fato e, indignados e desesperados, procuraram o delegado da cidade, pedindo a exumação do corpo. Em meio à confusão, Marileide foi levada à delegacia, onde confirmou a história e voltou a dizer que a morte da mãe era resultado do “ebó” feito pelos vizinhos.

Como não poderia deixar de ser, e evocando, mais uma vez, a providencial declaração do ex-governador baiano Otávio Mangabeira: “pense num absurdo, na Bahia tem precedente”, a filha da índia foi “incorporada” por um espírito dentro da delegacia, espírito esse “expulso” do corpo de Marileide por um pastor evangélico e um policial, adepto da religião.

Até o administrador do cemitério teve que controlar algumas pessoas, que foram ao local na tentativa de exumar o corpo e retirar o papel da boca da índia. O caso acabou encerrado pelo cansaço, já que o delegado disse não poder abrir o túmulo e aconselhou que os vizinhos procurassem a Justiça.

// (com) a medida da maldade

E eis que hoje eu leio a segunda carta aberta de jornalistas baianos de que me lembro nos últimos quatro anos. Não vou dizer que demorou, demorooooouu, só porque o assunto já vem sendo batido e rebatido há tempos (“E hááá tempos, neeem o santos têm ao certo a medida da maldade…”). Mas demorou. Mesmo assim, foi com satisfação que vi a categoria (minha, tadinha, meu Deus…) se manifestar em uma carta, propriamente dita, quanto às barbaridades que muita gente se delicia assistindo nos programas “policialescos” baianos. É, o pior é tem gente que adora ver isso.

Falo, para quem ainda não se localizou no assunto, do vídeo que vem por aí ganhando as redes sociais, em que a repórter (repórter? acabei de ver alguém levantar a possibilidade de que não seja) Mirella Cunha, da Band-BA, humilha diante das câmeras um rapaz, de prenome Paulo Sérgio, acusado de assalto e estupro. Paulo Sérgio é humilhado em cadeia nacional por não saber o que é um exame de próstata e, para que a repórter (repórter???) não perca a “viagem, acaba sendo julgado e condenado pela moça, que carrega um microfone como se fosse uma espada ou sei lá o quê.

E se o objetivo era alavancar a audiência, como sempre, deu certo: apenas uma das postagens no Youtube já acumula quase 500 mil vizualizações. A matéria (matéria?) exibida pela Band-BA, no programa Brasil Urgente Bahia (quanta Bahia no meio dessa esculhambação…) foi feita nas dependências da 12ª CP (Itapuã). Agora eu me pergunto: não já tinham proibido isso? Já, tinha um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) tratando justamente disso. Mas adianta alguma coisa?

Não, não adianta. Não adianta simplesmente porque a audiência que esses programas têm, a liberdade e o prestígio de que gozam dentro das delegacias, os anunciantes e o resto todo do caldo não permitem que as coisas sejam feitas corretamente. O vídeo em questão vem rodando há mais de uma semana. Mas não é um caso isolado. Nem Mirella Cunha é um caso isolado. Nem é o único bode expiatório desse esquema. Quando não é humilhação em “praça pública”, é assassinato, sangue e coisas do gênero na nossa cara, ao meio-dia. Dia desses tive o desprazer de olhar para a TV no momento em que era exibido, com exclusividade, um assassinato: vítima sendo queimada viva. E a cena sendo repetida em looping para todo o sempre, amém! Cenas como essa e como a protagonizada por Mirella são tão comuns que chega a dar desânimo em comentar…

E aliás, pra falar do trechinho da música que eu coloquei lá no começo: não é que maldade deva ter medida, mas há tempos perderam a linha de verdade. E só agora (em tempo), depois de tanta “comoção”, se é que se pode chamar assim, a Polícia Civil anunciou que vai apurar as responsabilidades do caso. Já diriam por aí no twitter: oremos!

E para que se faça saber qual o posicionamento da nossa categoria quanto a tais absurdos e para que, quem sabe (quem sabe, né?) alguma coisa mude um dia, esperamos sinceramente que em breve, segue a carta aberta divulgada hoje e direcionada ao governador Jaques Wagner, à Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia, ao Ministério Público Estadual, à Defensoria Pública do Estado da Bahia e à sociedade baiana. Em sábias e sempre atuais palavras de Gregório de Mattos, pra começar:

“O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.”
(Gregório de Mattos e Guerra)

Ao governador do Estado da Bahia, Jaques Wagner.
À Secretaria da Segurança Pública do Estado da Bahia.
Ao Ministério Público do Estado da Bahia.
À Defensoria Pública do Estado da Bahia.
À Sociedade Baiana.

A reportagem “Chororô na delegacia: acusado de estupro alega inocência”, produzida pelo programa “Brasil Urgente Bahia” e reprisada nacionalmente na emissora Band, provoca a indignação dos jornalistas abaixo-assinados e motiva questionamentos sobre a conivência do Estado com repórteres antiéticos, que têm livre acesso a delegacias para violentar os direitos individuais dos presos, quando não transmitem (com truculência e sensacionalismo) as ações policiais em bairros populares da região metropolitana de Salvador.

A reportagem de Mirella Cunha, no interior da 12ª Delegacia de Itapoã, e os comentários do apresentador Uziel Bueno, no estúdio da Band, afrontam o artigo 5º da Constituição Federal: “É assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral”. E não faz mal reafirmar que a República Federativa do Brasil tem entre seus fundamentos “a dignidade da pessoa humana”. Apesar do clima de barbárie num conjunto apodrecido de programas policialescos, na Bahia e no Brasil, os direitos constitucionais são aplicáveis, inclusive aos suspeitos de crimes tipificados pelo Código Penal.

Sob a custódia do Estado, acusados de crimes são jogados à sanha de jornalistas ou pseudojornalistas de microfone à mão, em escandalosa parceria com agentes policiais, que permitem interrogatórios ilegais e autoritários, como o de que foi vítima o acusado de estupro Paulo Sérgio, escarnecido por não saber o que é um exame de próstata, o que deveria envergonhar mais profundamente o Estado e a própria mídia, as peças essenciais para a educação do povo brasileiro.

Deve-se lembrar também que pelo artigo 6º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, “é dever do jornalista: opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos”. O direito à liberdade de expressão não se sobrepõe ao direito que qualquer cidadão tem de não ser execrado na TV, ainda que seja suspeito de ter cometido um crime.

O jornalista não pode submeter o entrevistado à humilhação pública, sob a justificativa de que o público aprecia esse tipo de espetáculo ou de que o crime supostamente cometido pelo preso o faça merecedor de enxovalhos. O preso tem direito também de querer falar com jornalistas, se esta for sua vontade. Cabe apenas ao jornalista inquirir. Não cabem pré-julgamentos, chacotas e ostentação lamentável de um suposto saber superior, nem acusações feitas aos gritos.

É importante ressaltar que a responsabilidade dos abusos não é apenas dos repórteres, mas também dos produtores do programa, da direção da emissora e de seus anunciantes – e nesta última categoria se encontra o governo do Estado que, desta maneira, se torna patrocinador das arbitrariedades praticadas nestes programas. O governo do Estado precisa se manifestar para pôr fim às arbitrariedades; e punir seus agentes que não respeitam a integridade dos presos.

Pedimos ainda uma ação do Ministério Público da Bahia, que fez diversos Termos de Ajustamento de Conduta para diminuir as arbitrariedades dos programas popularescos, mas, hoje, silencia sobre os constantes abusos cometidos contra presos e moradores das periferias da capital baiana.

Há uma evidente vinculação entre esses programas e o campo político, com muitos dos apresentadores buscando, posteriormente, uma carreira pública, sendo portanto uma ferramenta de exploração popular com claros fins político-eleitorais.

Cabe, por fim, à Defensoria Pública, acompanhar de perto o caso de Paulo Sérgio, previamente julgado por parcela da mídia como “estuprador”, e certificar-se da sua integridade física. A integridade moral já está arranhada.

Salvador, 22 de maio de 2012.

E a band se pronunciou, finalmente, na noite desta terça-feira (22):

A reportagem “Chororô na delegacia: acusado de estupro alega inocência”, produzida pelo programa “Brasil Urgente Bahia” e reprisada nacionalmente na Rede Bandeirantes, a Reporter Mirella Cunha, no interior da 12ª Delegacia de Itapoã, e os comentários do apresentador Uziel Bueno, no estúdio da Bandeirantes, afrontam o artigo 5º da Constituição Federal: “É assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral”. E não faz mal reafirmar que a República Federativa do Brasil tem entre seus fundamentos “a dignidade da pessoa humana”.
Deve-se lembrar também que pelo artigo 6º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, “é dever do jornalista: opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos”. O direito à liberdade de expressão não se sobrepõe ao direito que qualquer cidadão tem de não ser execrado na TV, ainda que seja suspeito de ter cometido um crime.
O jornalista não pode submeter o entrevistado à humilhação pública, sob a justificativa de que o público aprecia esse tipo de espetáculo ou de que o crime supostamente cometido pelo preso o faça merecedor de enxovalhos. O preso tem direito também de querer falar com jornalistas, se esta for sua vontade. Cabe apenas ao jornalista inquirir. Não cabem pré-julgamentos, chacotas e ostentação lamentável de um suposto saber superior, nem acusações feitas aos gritos. 
Rede Bandeirantes vai “tomar todas as medidas disciplinares necessárias. A postura da repórter fere o código de ética do jornalismo da emissora”. 
Pedimos Desculpas aos Nossos telespectadores garatimos que casos como esses não acorrerão mais no Grupo Bandeirantes.

 

// o fechamento

A vibe:

Redação de “O Tempo”, “Super Notícia”, “Pampulha”, “Portal O Tempo Online” e “Web TV O tempo”, em Belo Horizonte (MG) – “Oração do Jornalista”

O resultado \o/\o/\o/:

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