// dinheiro, moeda, cheque, chave do apartamento…

moedasOtária chegou no ponto 9h15 e pegou o buzu às 9h20. Um verdadeiro milagre (!) numa manhã nublada de quarta-feira no Reino do Dendê. Plugou o fone de ouvido, escolheu a música Igual-Desigual (poema musicado de Carlos Drummond de Andrade na voz de Fernamda Ca), procurou um assento e achou: a janela da última poltrona do Rio das Pedras-Campo Grande R1.

A viagem seguia mais ou menos tranquila, mas algo dizia que aquela última poltrona, no fundo do buzu, não era lugar pra Otária andar. Ou melhor, ela lugar de otário andar, mesmo… Lá pelo ponto do Campo Santo, último antes que Otária descesse para ir trabalhar, uma voz ao fundo:

– Dinheiro, moeda…

O coração de Otária deu aquele solavanco e um cara entrou na parte de trás do buzu com a mão cheia de cédulas de R$ 2. O primeiro pensamento de Otária foi o celular, impossível de esconder, já que o fone estava à vista. O segundo, abrir a bolsa e pegar o dinheiro da carteira para dar ao “dono” que tava lá na frente gritando:

– Dinheiro, moeda, cheque, chave do apartamento…

O terceiro pensamento: tirar o fone na esperança que o cara não visse o celular. E aí Otária ouve o moço falando:

– Cinco paçoquita é R$ 1, batatinha é R$ 1, dinheiro, moeda, cheque, chave do apartamento, tudo paga!

Otária puxou a cordinha do ônibus e desceu logo, antes que o “dono” de verdade chegasse. Constrangimento total, mas lindo ia ser se Otária despachasse todo o rico dinheiro de final de mês na mão do vendedor de paçoquita às 9h40 de uma quarta-feira…

Anúncios

// os 10 mandamentos do Rei do Buzu

Montagem sobre foto d'O Globo

Agregando valor a este blog.

1. Guarda-roupa
Quem anda de buzu não devia se dar ao luxo de usar branco. Suja muito e você ainda corre o risco de chegar com cara de que pegou a roupa no balde de roupa suja e saiu de casa sem nem se olhar no espelho. Mas já que não tem jeito, melhor não gastar aquela calça branca que você comprou com o maior sacrifício. As da Riachuelo ou da Barroquinha estão de bom tamanho. Rei do Buzu que se preza seleciona a cadeira que vai sentar, de preferência as que não perderam o assento e ficaram com aqueles parafusos enferrujados. Ficar em pé é mais seguro nesses casos, mas ir sentado é status (statis?).

2. Mercedes-Benz
BTU e Central são mito, né? Em que outro buzu você tem a chance de ir sentado assistindo TV ou poder saber, num painel, qual é o próximo ponto? Mas é privilégio para poucos, porque nem todas as linhas são servidas. Outra coisa que agrega valor é o Beiru-T.Neves/Barra, que tem Wifi. A vantagem é que o valor é o mesmo. Não tem aquela coisa de variar de R$ 2,80 até o infinito (ainda…).

3. Serviço Exclusivo
O Rei do Buzu não compra qualquer bugiganga na mão dos vendedores ambulantes. Um bom frequentador já conhece os caras que inventam a mesma história todo santo dia, da filha que está internada no HGE até a guia que foi roubada. Comprar caneta para ajudar crianças carentes agrega valor à atitude.

4. Segurança
Segurança é uma coisa que não existe em lugar nenhum, mas o Rei do Buzu de verdade – não os outros, os invejosos – sabe com quem se relacionar. Num fim de linha de não-sei-de-onde, por exemplo, puxa papo com o motorista, com o cobrador. Segurança mesmo é sentar mais na frente, porque em qualquer emergência, dá para descer rapidamente. Tem que cuidar da integridade física da vida e dos bens.

5. Guaramix
Eu vou ser sincera com a questão do Guaramix. Eu prefiro a água, mas o Guaramix é status, entendeu? Até porque existe toda uma preparação, porque quando você pede o Guaramix, elas te olham como se você fosse meio atleta, e isso chama a atenção no buzu. Sem contar que é mais caro…

6. Famosos
Conhecer o motorista e o cobrador é fundamental. No final do dia, o Rei do Buzu sempre senta de camarote na primeira cadeira do buzu é fica de papo com o motorista – só quando o sinal está fechado, para não atrabalhar (aonde…). Conhecer os artistas de buzu também é fundamental. Pareta, Arthur, Onofre, o argentino do arrocha… Agrega valor a tudo: à sua linha, à sua cadeira, aos seus R$ 2,80.

7. Mulheres
Buzu tem que ter mulheres, mulheres bonitas. Porque não faz sentido você ter tudo aquilo ali e não ter as mulheres. É como você comprar um iPhone e não ter crédito. Sabe uma coisa? Mas aí eu acho que pode dar cana… Eu já transei no buzu… Lá no fundão, no pernoitão, Barra 1-Estação Mussurunga… pena que o buzu não tem banheiro…

8. Música
O Rei do Buzu que não tem uma caixinha de som com entrada USB não é um Rei do Buzu. Tem que ter Psirico, Black Style, Robysão, A Bronkka… No frescão rola uma MPB, também. Sempre rola um DJ de Buzu, e tem uns profissionais.

9. Instagram
Se não tiver Instagram, não é legal. Mas aí é aquela coisa. Se tiver o iPhone ou o Android e não tiver crédito, é como não ter, porque você não tem como postar, como divulgar suas fotos, seus vídeos dos acidentes, das manifestações, dos engarrafamentos, das brigas, dos famosos (seus amigos), da cidade alagada…

10. Invejosas
Quem não queria andar andar num buzu vazio, vendo TV, ouvindo música, usando wifi, conversando com os artistas, rodeada de gente bonita? Eu sei que muitos vão me criticar, mas, enfim, eu vejo isso como uma inveja.

// o taxista era corno

TaxiAndo desconfiando que tenho um pouco cara de divã, ou de psicóloga, ou de cigana, cartomante, essas coisas. Tendo cara de porto de desabafo ou não, em menos de 15 dias, dois taxistas me confessaram suas condições de cornitude crônica…

Sério. Que tipo de gente conta que é corno pra pessoa que acabou de entrar no seu táxi? Pior: que tipo de conta conta que é corno pra um jornalista? Pode ser um momento, um pós inferno astral. Enfim. Jornalista é fofoqueiro profissional, diplomado. Pra não negar a origem, vou espalhar:

O primeiro caso foi mais grave. Entrei no táxi às 23h de um domingo na porta da Rede Bahia com destino à Barra, corrida curtinha, 5 minutos no máximo, R$ 8. Aí o moço puxa a conversa:

– Você é jornalista?

– Sou.

– Hummm, legal, eu gosto (?)…

Começa a tocar Asas Livres já na entrada da Euclydes da Cunha e o rapaz – tá, não era um jovem rapaz, era um cinquentão bem baiano – desenvolve:

– Me separei da minha mulher, mas separei gostando, sabe?

– Sei como é…

– Ela não tava feliz comigo… Ela queria ficar minha amiga, mas na hora eu não quis, não… Hoje a gente é amigo, ela sabe quando eu tô saindo com alguém, fica com ciúme [risos]. Mas na hora eu não quis ser amigo, não, viu?

– Por quê?

– Ahh, porque quando fica amigo de cara assim é porque não gosta… Quando você gosta, você fica magoado, aí não quer ser amigo.

– Hum…

– Aí hoje… já tem sete anos. Hoje eu fico (ui!) com uma amiga. Eu nem sabia que eu gostava dela, mas ela gostava de mim. Quando eu vi que eu gostava dela, ela ficou esnobando. Me retei!

– Oxe!

– É, me retei! Ela me deu um gelo, aí eu dei gelo nela também. Ela me ligou, a gente marcou no domingo. Sabe o que eu fiz? Tirei o chip da Oi do celular! [gargalhadas]

– Mas moço…

– Claro, tem que valorizar o passe…

Fim do primeiro ato. Ontem, pego um táxi na Pituba sentido Barra, 22h. Tempo de sobra pra ouvir histórias maravilhosas – ou para ficar naquele silêncio mesmo, curtindo a cidade sem engarrafamento. E assim estávamos, eu e o taxista, um rapaz jovem, educado, bom motorista, etc… Todo bom partido. Aí começa a tocar na rádio aquele pagode Só Pra Contrariar:

– Hoje tá com três meses que eu terminei um noivado de sete anos e meio…

– [Meu Deus, mas não é possível!]…

– Mas terminei gostando… Tava com o apartamento comprado, mobiliando, já, tudo pronto, aí eu terminei.

– [OMG] Mas por que assim, moço?

– Não consegui perdoar a traição dela, não…

– Humm, entendi…

Alexandre Pires (ou o irmão gêmeo dele, sei lá) continuou cantando e o rapaz do meu lado continuou sofrendo. Mas esse sofreu em silêncio, todo pensativo, passando a mão na cabeça de vez em quando.

É, se eu não der certo como jornalista, eu armo um divã ambulante e começo a cobrar a corrida pro taxista:

Ouço história, interajo, balanço a cabeça, me compadeço e nem chamo o cliente de corno – pelo menos não na frente dele.

// sobre humilhações telefônicas

nokia (1)Olha, faz tempo que Otária da Silva Sauro não se revolta com nada, mas ser chamada de pobre na cara dura é demais. Tudo bem que a gente não nega, mas, poxa, a pessoa trabalha o suficiente pra dignificar a alma, né?

Foi assim: Otária resolveu trocar a operadora do segundo chip do celular porque estava cansada de ver o pobre do telefone com DDD de outra cidade no modo pai-de-santo: só recebendo.

Num domingo qualquer de inspiração – ou não – Otária compra o tal do chip da outra operadora. E agora fica aquela putaria típica da operadora que te chama de pobre na sua cara e nem liga se você fica ofendido com isso =/

– Olá! Os seus créditos estão terminando, não fique sem falar! Vá até o local mais próximo e faça uma recarga! aguarde, estamos transferindo a sua ligação…

¬¬

Ok, muito nobre da parte dos coleguinhas avisarem que, em breve, você não vai mais ter créditos. Mas precisa dessa parte de ‘não fique sem falar’???

Qual é! É a mesma coisa que dizer: se seu chip fosse conta, você não teria esse problema, oras! E pra completar, ainda vem com uma história assim:

— Olá! O seu saldo está abaixo de R$ 10… Estamos completando a sua ligação!

Ô, véi, R$ 10 dá pra ligar pra Deus e mundo, deixe de pressa!

// amor de buzu é assim

eu_amo_o_amor_do_onibus_i_o_onibus_do_onibus_cartao_postal-p239558392635812827envli_400Marcamos pontualmente às 8h15 na Graça. No começo, era aquela ansiedade, sem saber se ele vinha, se não vinha, se ia dar certo ou não. Será que ia me dar um bolo? Será que ia me tratar como uma qualquer e me deixar em pé, na fila, esperando um lugar vago? Não. No começo, não foi assim. Foi lindo!

Aquilo da primeira vez virou rotina. Nos encontrávamos todos os dias às
8h15 e dávamos um passeio matinal, até agradável. A gente se divertia! Música no volume máximo, um livro de vez em quando… A habilidade dele em correr pelas ruas; a minha, de me segurar nele para não cair. Até rolavam uns amassos nas curvas da vida. Eram as mil maravilhas.

Mas… homens! Com o tempo, relaxou. Começou a deixar a pontualidade de lado e, confesso, com o meu orgulho no chão, que eu continuava esperando. Todos os dias, as 8h15, eu estava lá, no mesmo local. Passados 20 ou 30 minutos, tinha que me contentar com o irmão gêmeo, o que se sempre quebrava meu galho.

Seis meses de relacionamento e nosso amor já havia esfriado. Ele não comparecia mais como no início, às vezes virava para o lado e dormia, ou então ia muito devagar, só para me contrariar. Me indignei. Era muita falta de respeito, então comecei a passar a perna nele. Não chegava na hora? Eu pegava outro… e outro… e outro… até chegar onde eu desejava.

Oito meses de namoro e nossa relação estava insustentável. No início do mês, ele até se esforçava – eu acho – para ser como no começo. Pontual e atencioso, divertido. Mas não durava. A sensação que eu tia era que ele andava me trocando por outra, ou que já tinha cansado mesmo.

Um ano e um mês. Cheguei à triste conclusão de que a nossa relação só dura por conta dos outros, a quem recorro eventualmente. Prefiro não saber das traições dele: o que os olhos não vêm, o coração não sente, é o que dizem…

Mas sabem como é essa relação de dependência, né? A gente cansa, chora, briga, se desgasta. Os amigos dizem que está na hora de acabar, de trocar o óleo. Mas como pôr fim a uma relação de tanto tempo, tantas alegrias, por conta de uns pequenos atrasos? (Tá, grandes atrasos!!).

Mudei de ponto, mudei de preço, mudei de estratégia, mudei de horário. Tudo mudou na nossa relação, mas uma única coisa permanece neste um ano e um mês: a minha necessidade crônica, a minha dependência como o ar que eu respiro, do miserável do 1137, Pernambués-Barra, de segunda a sexta, às 8h15.

Ass,

Otária da Silva Sauro

// a minha alma tá presa no buzu

Tô eu – Otária da Silva Sauro – no buzu (como sempre) esperando chegar o maxi-ponto de Pernambués pra poder descer, né? Aquele amontoado de gente na fila pra descida quando, de repente, o motorista arrasta o buzu, sem piedade. O povo, claro, começou:

– Ôôôôô, motô, peraí!

Ele não parou de novo, claro, porque tava no cruzamento. Começam os xingamentos a quem não vai descer no ponto e fica atravancando o meio de campo. A culpa é do motorista, que não parou de novo? Claro que não. A culpa é de uma senhora que PREGAVA, insistentemente, às 9h, dentro do buzu. Agarrada no cano, a miserável não se deixava interromper por PN, e continuava:

– A SUA ALMA ESTÁ PREEEEEESA NO ÁLCOOL?

E o povo querendo responder, né? Um desgraçado até fazia coro pra criatura lá do fundo, enquanto outro reclamava, em italiano, SAMBANDO na cara da mulher, que continuava:

– A SUA ALMA ESTÁ PRESA NAS DROOOOOOGAS? A SUA ALMA ESTÁ PRESA NAS COISAS MUNDAAAAANAS? A SUA ALMA ESTÁ PREPARADA PARA O PARAÍSO????

Inabalábel. Acho que se o buzu virasse ali, ela não via e nem parava. Meu coleguinha, divinamente, respondeu:

– A minha alma tá pronta pra trabalhar, minha senhora, dá licença?

A filha de Jeová não se mexia do lugar por nada no mundo. Enquanto isso, a nossa alma seguia presa no buzu até o próximo ponto. Quer dizer… PQP!

// Diário de uma Otária: a alma penada

Você acorda sozinha em casa, abre a porta do quarto e ouve uma risada, meio histérica, meio nervosa, meio macabra. Pois é: nem todo mundo vê fantasma, mas tem gente que ouve. E Otária da Silva Sauro, com 5 graus de hipermetropia, é dessas.

O que eu acho graça, eu, euzinha, Otária, é que o fantasma que me assombra nunca aparece quando eu tô de galera em casa. Ele sempre aparece quando eu tô sozinha e com a mente bem fértil.

Quer dizer… Tô eu saindo do quarto às 7h40 da madrugada pra tomar o santo banho matutino de cada dia (matutino, mesmo, pra ninguém pensar que eu só tomo um no dia), abro a porta e:

– HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!

– … Victor?

– …

– Bela?

– Tali?

– Alguém? Ninguém??? Ai, meu deus!!!

Foi bem assim. Só que aí, num ato raríssimo de bravura e coragem, peguei a minha toalha e uma régua e fui andando pela casa: dois quartos, o banheiro, a sala. Ninguém, ninguénzinho da Silva. Ir até a cozinha já era um pouco demais, né? Porque na cozinha eu não tinha saída pra correr.

Caminhei pro banheiro munida da minha toalha de banho e da minha régua. E os óculos, pro caso de eu precisar enxergar a alma com um pouco mais de precisão. Tomei banho com a porta aberta, pra facilitar a minha fuga. Mas aí comecei a pensar que, talvez, quem sabe, também facilitasse a entrada do fantasma.

Entrei de volta no quarto e tranquei a porta. Troquei de roupa e fiquei lá, uns 10 minutos, pensando na localização exata da risada que tinha me assombrado. Chamei, numa última esperança de que a risada tivesse um dono vivo, de carne e osso:

– Viiiiiiiictor?

– Dona Nazaré?????? (minha vizinha)

Nada, ninguém. Peguei a bolsa, o celular, a chave de casa, R$ 0,20 e abri a porta do quarto. Nenhuma alma à vista. Achei melhor não arriscar ir comer – vai que a alma tava comendo meu queijo e meu suco de uva, né?

Saí de casa, tranquei a porta e fui pro ponto de ônibus, com fome, sonhando com o misto no pão de sal d’A Praça é Nossa. Sei lá, com fantasma não se brinca… nem quando ele está bem-humorado.