// quer uma bala?

292116_Papel-de-Parede-Anime-Menina-com-Guarda-Chuva_1920x1080Abri um olho quando o despertador tocou pela primeira vez, às 8h30. Tudo escuro, apesar de a janela do quarto tomar a parede inteira. Do lado de fora, uma britadeira tamanho família – não consigo pensar em nenhuma outra definição pro barulho infernal que me acordou hoje de manhã. Se eu acordei com os trovões da madrugada que todo mundo comentou? Claro que não.

Levantei, tomei um banho, escovei os dentes, engoli uma vitamina C e fiquei pronta para trabalhar. Tudo lindo, não fosse o dilúvio que se anunciava com o dia-quase-noite que fazia. Dito e certo. Escureceu. Abafou. Choveu. Choveu. Choveu – um dilúvio mesmo. Alagou. Virou enxurrada. Peguei um rodo, abri caminho no rio que se transformou a minha varanda. Pedi um taxi e esperei na esquina, com um guarda-chuva de florzinhas, calça, camiseta, sapatilha.

– Bom dia, Clarissa? Pediu um táxi, né?

– Bom dia, pedi sim!

Entrei. Cinco minutos: 500 metros andados. Vinte munutos: 500 metros andados. 30 minutos: 600 metros andados. O taxista, um rapaz de camisa social listrada, calça preta, sapatos pretos de verniz e uma gravata quase elegante, puxou o freio de mão, deitou o banco do carro, olhou pra trás:

– Quer uma bala?

– Não, não, obrigada.

Minha mãe me ensinou a não aceitar coisas de estranhos. Apesar de que o moço parecia inofensivo, ouvindo uma rádio gospel e cantando direitinho todas as músicas.

Trinta e cinco minutos, 700 metros andados, um pastor começa a falar na rádio que o mal não se combate com mal, nem macumba com macumba (!). Uma senhora começa a dar um testemunho de que fez uma oração com um óleo perfumado e a vizinha, coitada, com dor na barriga, começou a “botar pra fora o trabalho, uma monte de linha preta, vermelha”.

Quarenta minutos e o taxi para na porta do nº 123, eu já quase convertida, numa corrida que custou o dobro do habitual. Ali, a 15 minutos da minha casa nas CNTPs, fazia sol. Guardei o gaurda-chuva de florzinhas, me arrependi da blusa de manga curta e respirei um ar mais fresco. Salvador, não choveu mais.

// bicicletando em Londres

Antes de começar a escrever, pensei em não reclamar, em ser menos rabugenta só dessa vez. Mas o assunto não permite. Só uma reclamaçãozinha de leve: por que, minha gente, as pessoas no Brasil não conseguem colocar em prática soluções viáveis para melhorar o trânsito? Hoje eu entro num ônibus e, às vezes, tenho mais medo de ficar dentro dele do que em cima da minha bicicleta. Quando o motorista desce a Avenida Contorno no começo da manhã ou o viaduto da Rótula do Abacaxi no final da tarde, a oração começa com “Senhor, não faça com que esse ônibus despenque daqui” e acaba com “Ufa! Mais 24 horas”.

E aí a gente vai vendo que as pessoas até tentam, mas não se vê solução para o trânsito caótico nas grandes cidades brasileiras. E por aí a fora, a gente vai vendo as coisas funcionarem. Não foi um passe de mágica, mas estão aí para servir de exemplo. Só que ninguém segue…

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Gente, tem um desvio ali na frente…

200 metros. Lá vem o anel de contorno. Uma dirige, a outra fala no telefone. As três de trás não fazem nada. Quase nada. O fundo musical, ironia ou não, é Bicho de Sete Cabeças. Deve ser a 15ª vez que a gente ouve isso. O álbum O Grande Encontro só tem quatro músicas. Ninguém adivinha nunca qual vem depois… Desce a ponte, faz o balão.

─ Quem quer falar comigo? Nãooooo, não é comigo. Ãhn? Como? Não. NÃO. NÃO!!! Pára, tá errado, tá errado, tá errado! Eu não posso falar com você agora. Depois eu te ligo, tá tudo atrapalhado aqui!!!

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